A esperança do evangelho para uma epidemia

Um número incrível de 64.000 mortes acidentais por overdose aconteceram nos Estados Unidos da América em 2016. Para colocar em perspectiva esse número de pessoas, mais americanos morrem acidentalmente por ano devido à vícios do que pessoas morreram em toda a Guerra do Vietnã. Outra estatística alarmante é que, desde 2001, o custo estimado da epidemia de opióides sozinho (sem incluir outras drogas) é de um trilhão de dólares e estima-se que custará US$ 500 bilhões nos próximos 3 anos.[1] O que muitos veem como um problema sem esperança que drena a sociedade deve ser visto pelo corpo da Igreja em todo o mundo como uma enorme oportunidade para apontar as pessoas para a esperança do evangelho e para Jesus Cristo.

Soluções governamentais

Uma “solução” que está ganhando popularidade chama-se “tratamento médico assistido”. A metadona é a droga mais comum utilizada como substituto de opióides e geralmente é fornecida através de uma clínica de tratamento e prescrita por um médico. A metadona é um narcótico de programação II com um alto potencial de abuso devido às suas propriedades de alívio de dor de ação prolongada. Também há um alto risco de dependência física e efeitos de abstinência muito dolorosos e duradouros quando se decide fazer a desintoxicação. Comunidades como Lafayette (cidade que fica no estado de Indiana, EUA), estão abrindo clínicas de metadona para combater a epidemia de opióides, argumentando que a metadona como substituto para heroína e prescrição de opióides é uma solução viável para reduzir a taxa de mortes por overdose.

Minha experiência em primeira mão

Muitos anos atrás, eu trabalhei como diretor de uma clínica de metadona e vi, em primeira mão, quão inadequada é essa solução porque ela falha em transformar o coração. Durante o meu tempo lá, eu aconselhei somente duas pessoas dentre muitas centenas (menos que 1%) que passaram pelo processo de desintoxicação com sucesso e que conseguiram manter sua sobriedade por pelo menos seis meses. Eu também sei que esses clientes não ouviram sobre a mensagem eterna do evangelho nesse programa. Eles não foram ensinados sobre a idolatria do vício, então eles nunca eram levados a confessar seus pecados, clamar por perdão, se arrepender, e colocar sua fé em Jesus Cristo para a vida eterna (Provérbios 28.13).

Os pontos positivos eram que a ingestão de metadona era feita pela clínica (embora pudessem comprar dos amigos que conheceram enquanto esperavam na fila da clínica). Testes de drogas eram um impedimento até certo ponto, mantendo alguns clientes motivados a não usar drogas ilícitas, embora esta não fosse a norma. Como uma medicação, a metadona encobria os altos dos opióides. Se um viciado tentasse usar heroína, ele não sentiria isso. Aconselhamento foi oferecido, embora não fosse bíblico.

Os pontos negativos eram que a metadona não prevenia o cliente de experimentar os altos da maconha, benzodiazepínicos, cocaína, anfetamina, e outras drogas. Porque a alta habitual de um opióides não podia ser experimentada durante a metadona, a maioria dos dependentes usavam outros remédios não-opióides para se sentirem bem, já que o uso de opióides era uma perda de dinheiro, tempo, e energia. Não era incomum ter clientes com overdose e morrendo durante o programa porque os seus corações físicos não suportavam o poder da cocaína e da maconha, misturados com a metadona.

A desintoxicação da metadona é extremamente dolorosa devido a vida longa da droga, resultando em efeitos que duram muito mais do que a retirada de um opióides. O plano da maioria das clínicas de metadona é manter o dependente utilizando a droga pelo resto de sua vida. Desintoxicação não é algo encorajado, o que faz sentido porque é consistente com as convicções do mundo do aconselhamento de dependentes em geral. Se vício é uma doença vitalícia, progressiva, e fatal, que nunca será vencida, então o pensamento é: “Você é um viciado; você será um viciado; metadona é a sua solução; porque desintoxicação?” No entanto, enquanto eu aconselhava muitos dependentes na clínica de metadona, eu utilizava uma analogia sobre céu – inferno – purgatório para encorajar a desintoxicação. O tratamento deles na clínica era algo similar ao conceito de “purgatório”.[2] Estar na metadona era melhor do que o “inferno” de viver nas ruas usando heroína, mas era pior do que a liberdade do “céu” que eu comparava a estar livre das drogas (por favor, entenda que essa é uma comparação míope com relação ao céu). Meu ponto era que a metadona não oferecia verdadeira liberdade, então eu os encorajava à desintoxicação. Poucos faziam.

Com essa experiência passada e com pouquíssimas soluções seculares viáveis no horizonte, eu me tornei muito mais apaixonado por treinar e mobilizar a igreja local para o trabalho do ministério através do aconselhamento bíblico. Eu vi muitas mortes por causa do vício. Eu observei teologias incorretas sendo ensinadas dogmaticamente em vários programas de tratamento e reabilitação onde participantes eram apontados para fora da igreja, para longe do verdadeiro evangelho, para longe de Cristo (Colossenses 2.8). Estas coisas me entristecem. Os programas seculares de tratamento não são neutros, uma vez que 93% deles abraçam pela “fé” (não pela ciência) o conceito de que vício é uma doença e a ideia de autoajuda. Ao final do dia, é uma questão de fé, não uma questão de fato (embora eles apresentem suas crenças como factuais e científicas).

Duas abordagens espirituais

A mudança comportamental (que é o único objetivo dos programas de reabilitação seculares) pode prolongar, de forma temporária, a vida física, mas geralmente é de curta duração, uma vez que muitos voltam ao uso das drogas. Cristãos deveriam se preocupar com um objetivo muito maior do que a sobriedade! Haverá muitas almas limpas e sóbrias no inferno. Eu tenho certeza de que meus leitores já sabem disso, mas Jesus Cristo é a única resposta, o evangelho é a única mensagem verdadeira, e a igreja local é a única comunidade que tem o que o dependente está buscando—esperança duradoura, propósito eterno, e relacionamentos genuínos. Eu preferiria enviar um dependente para uma igreja local com um aconselhamento bíblico sólido do que para uma clínica secular de reabilitação. Ambos os programas ensinarão ao dependente que vício é um problema espiritual! Um ensinará que qualquer deus fará e rotulará esse deus de escolha pessoal como “Poder Superior”. O outro irá ensinar que somente o Senhor Jesus Cristo fará (João 14.6) e que ele é suficiente para transformação nessa vida (Romanos 12.1–2) e promete vida eterna a todos que creem (João 3.16). São distinções significantes nas duas abordagens espirituais! Igreja, nós temos uma oportunidade urgente e incrível aqui para “fala a verdade em amor” (Efésios 4.15) para almas feridas que lutam com pecados de natureza aditiva.

Treinamento na igreja local

Felizmente, há alguns programas muito bons baseados na Bíblia e centrados no evangelho. Tenho trabalhado sistematicamente com uma rede de programas de alcance de dependentes baseado na fé em todo o país por muitos anos, e estou ansioso para compartilhar com vocês o que eu tenho visto. Nós relançamos um ministério de 10 anos chamado Ministério da Verdade em Amor (Truth in Love Ministries) para que eu possa treinar igrejas locais a alcançar, de forma criativa, dependentes e suas famílias. Visite o nosso site em www.histruthinlove.org para ver datas de treinamentos próximos a sua área ou entre em contato conosco para fazer um treinamento em sua igreja. O próximo treinamento é a Conferência Equip 18 Partnership que nosso ministério está promovendo juntamente com o Crossroads Bible College em Indianapolis, Indiana. Com o mundo clamando por ajuda e acreditando que o vício é algo sem esperança e uma doença vitalícia, a igreja tem uma oportunidade de glorificar ao Deus do universo, que continua no seu trono, transformando vidas pela sua maravilhosa graça.

Perguntas para reflexão

O que a sua igreja tem feito para alcançar a comunidade de dependentes? Como a abordagem bíblica com relação a vícios é diferente da abordagem secular? Por que isso importa?

 

[1] Greg Allen, “Cost of U.S. Opioid Epidemic Since 2001 is $1 Trillion and Climbing,” last modified February 13, 2018. https://www.npr.org/sections/health-shots/2018/02/13/585199746/cost-of-u-s-opioid-epidemic

[2] Esta não é um endosso de crença no purgatório, mas uma analogia. Eu não acredito que o purgatório é um lugar real porque eu não o encontro em lugar algum das páginas das Escrituras.

 

[Este post, de autoria de Mark Shaw, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Gustavo Santos e republicado mediante autorização.]

Escrito por Gustavo Santos

Gustavo Santos é engenheiro, e mestrando em Divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette, IN, EUA). Atualmente, serve como estagiário na Igreja Batista Maranata em São José dos Campos - SP.

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