Aconselhamento Bíblico, Revelação Geral e Graça Comum

Por Dr. Heath Lambert[1]

Algumas vezes, uma confusão teológica tem sido apresentada na história dos debates entre conselheiros bíblicos e cristãos a respeito da diferença entre graça comum e revelação geral. Integracionistas, em particular, têm demonstrado algum nível de confusão teológica concernente à natureza da revelação geral. Um exemplo desta confusão é articulado por Larry Crabb:

“Toda verdade é, certamente, verdade de Deus. A doutrina da revelação geral proveu garantia para se ir além da revelação proposicional da Escritura, no mundo secular do estudo científico, na expectativa de se achar conceitos verdadeiros e utilizáveis.”[2]

Crabb fundamenta o exame da ciência e a expectativa de achar conceitos verdadeiros e utilizáveis para o aconselhamento na doutrina da revelação geral. Mas a declaração de Crabb demonstra um entendimento errado do que é a revelação geral.

Na teologia cristã, revelação geral é a realidade que Deus demonstra de si mesmo, ao mundo, por meio das coisas que ele criou, de forma que o mundo é indesculpável ao rejeitá-lo. A revelação geral, portanto, condena a humanidade por uma declaração óbvia da existência e bondade de Deus, a qual eles rejeitaram devido aos seus pecados. A Bíblia ensina isto em Romanos 1.18–20:

“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis.”

Paulo nos fala de diversas coisas sobre a revelação geral aqui. Primeiro, ele deixa claro que a revelação geral é revelada. Ela é revelação. Ela não é alguma coisa que pessoas descobriram. Ela é algo que “Deus revelou”, e se Deus não tivesse nos mostrados, nós nunca saberíamos.

Segundo, revelação geral é sobre Deus. O objetivo da revelação geral é o próprio Deus. O que torna este tipo de revelação geral, não é o tipo de informação que ela transmite (não é, como Crabb indica, concernente ao mundo de estudo científico per se). O que torna este tipo de revelação geral é a audiência, a saber, todas as pessoas que já viveram. O assunto da revelação geral é o caráter de Deus, “o seu eterno poder e a sua própria divindade”. A revelação geral não é a verdade geral do mundo. Ela diz respeito a uma verdade específica sobre Deus, para uma audiência humana geral.

Terceiro, a verdade sobre Deus transmitida na revelação Geral é suprimida por descrentes. Romanos 1 é claro: Deus tornou conhecida a sua existência e seu caráter ao mundo por meio das coisas que ele criou, mas as pessoas rejeitaram esta revelação. Por causa do nosso pecado, não podemos admitir a verdade de que tudo o que existe aponta para Deus, que tudo criou. Nós não podemos admitir isto porque tal admissão revelaria nossa responsabilidade diante de Deus. Porque pessoas pecadoras não suportariam ser confrontadas em sua culpa, elas suprimem a verdade de Deus revelada na revelação geral.

Finalmente, a revelação geral conduz à condenação. Deus se revelou claramente às pessoas no mundo, mas os pecadores rejeitaram esta revelação e, então, Deus lhes revelou sua ira. No termo imediato, Deus demonstra sua ira entregando as pessoas a mais e mais pecado (Rm 1.24-32). NO termo posterior, as pessoas são julgadas para sempre ao inferno por sua rejeição (Rm 2.5) A revelação geral torna Deus justo ao condenar o perverso que o rejeita.

A revelação geral, não é aquilo que seu cardiologista sabe a respeito de como fazer uma cirurgia; não é o que seu eletricista sabe a respeito de como fixar a luz na sua casa; e não é o que criadores de cachorro sabe a respeito de como cuidar de um canil. Mais relevante para a nossa discussão é que a revelação geral não é o que um psicólogo sabe a respeito do funcionamento humano.

Deus revela sua existência e sua glória no batimento do coração humano, na beleza e alegria de animais e em todas as formas de funcionamento dos seres humanos. Os incrédulos, provavelmente, sabem muitíssimo sobre essas coisas, normalmente conhecendo mais do que os cristãos. A habilidade das pessoas em conhecer essas coisas não é devido à realidade teológica da revelação geral, mas sim à doutrina da graça comum. A doutrina da graça comum permite aos incrédulos conhecerem coisas verdadeiras sobre o mundo, mesmo quando rejeitam a Deus, o qual criou aquelas verdades e se revelou por meio delas.

Não é um ponto teológico abstrato insistirmos que colocamos as descobertas da psicologia, sob a categoria da graça comum, ao invés de revelação geral. A revelação geral é uma demonstração autoritativa do caráter de Deus, por meio das coisas que ele criou. É obrigatória para todas as pessoas. Sua autoridade não é controlada por outra realidade. Se colocássemos as descobertas da psicologia sob a doutrina da revelação geral, nós as impregnaríamos de um sentido de autoridade que elas não merecem.[3] Nós devemos deixar claro que psicólogos seculares podem conhecer informações de forma acurada por causa da graça comum de Deus, mas também insistimos que seus pensamentos podem estar corrompidos por causa dos efeitos noéticos do pecado. Estas asserções nos permitem abordar a psicologia secular com o realismo bíblico. Nós podemos esperar que psicólogos façam muitas observações acuradas e fascinantes. Nós também esperamos que eles tenham erros na sua forma de pensar e que sejam confundidos a respeito da natureza de muitas das realidades que eles queiram entender.

* Este texto foi publicado originalmente como um apêndice do livro Teologia do Aconselhamento Bíblico, publicado pela Editora Peregrino, 2017. Usado com permissão.

[1] Dr. Heath Lambert é o diretor executivo da Association of Certified Biblical Counselors (Associação de Conselheiros Bíblicos Certificados – ACBC). É também um dos pastores da First Baptist Church em Jacksonville, Flórida (USA), e professor de Aconselhamento Bíblico no The Southern Baptist Theological eminary. Lambert é escritor e editor de vários livros, dos quais, a Editora Peregrino publicou: Aconselhando os Casos Difíceis e Finalmente, Livre!

[2] Larry Crabb, Effective Biblical Counseling: A Model for Helping Caring Christians Become Capable Counselors (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1977), 36. Veja também John D. Carter e Bruce Narramore, The Integration of Psychology and Theology: An Introduction (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1979); Gary R. Collins, The Rebuilding of Psychology: An Integration of Psychology and Christianity (Carol Stream, IL: Tyndale, 1977).

[3] Douglas Bookman, “The Scriptures and Biblical Counseling”, em John F. MacArthur Jr. e Wayne A. Mack, Introduction to Biblical Counseling: A Basic Guide to the Principles and Practice of Counseling (Nashville: Thomas Nelson, 1994), 63-97.

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