Aconselhando o Conselheiro quando o Aconselhado Cai

Esta semana, um aconselhado fez uma escolha que irá afetar a vida de muitas pessoas que o conhecem. Uma dessas pessoas afetadas foi o conselheiro, que investiu anos na vida dessa pessoa. Enquanto eu conversava sobre isso com o conselheiro, fiquei impressionado com o pouco que minhas palavras serviram para confortar meu amigo cujo coração estava doendo.

Qualquer um de nós que já aconselhou muitas vezes esteve nessa situação. Eu posso pensar em dois casais que eu aconselhei por dois anos cada. Eu sou grato a Deus por ver que um deles está indo bem. Como o apóstolo João diz em 3 João1.4, “Não tenho maior alegria do que esta, a de ouvir que meus filhos andam na verdade.” O outro casal não está indo bem, e as vezes eu sinto o peso das escolhas que eles fizeram. Tantas pessoas investiram tanto tempo na vida deles, e inicialmente, as perspectivas pareciam muito promissoras.

Então, para onde conselheiros vão quando seus aconselhados tomam decisões de quebrar o coração? Como entendemos as escolhas sem sentido e os danos colaterais que elas causam? Onde podemos encontrar conforto?

Ordem Divina 9.27

Como um jovem médico, eu tive que lidar com a versão médica dessa questão. Eu estava impressionado com a noção de que minhas decisões poderiam significar vida ou morte para os meus pacientes. Eu suspeito que essa consciência tenha surgido dos códigos da prática de ressuscitação que fizemos em nosso treinamento. Se eu fizesse a escolha errada e desse uma ordem errada, o instrutor diria que eu acabei de matar o paciente. Trabalhar sob pressão é uma das melhores formas de melhorar a performance.

Levou um tempo, mas eu finalmente cheguei em Hebreus 9.27: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disso, o juízo”. Como um jovem cristão, eu interpretei esse verso mais concretamente. Ordens significavam algo para mim. A cada 15 minutos, eu veria outro paciente. Algumas vezes eles estavam no horário e eu chegava atrasado, ou eu estava no horário e eles chegavam atrasados. Era um processo que eu não conseguia controlar completamente.

Um dia eu me dei conta de que eu não estava sozinho nas escolhas que afetam a vida dos pacientes. Eles tomam decisões e Deus também. O resultado foi a “ordem divina 9.27”. Como eu muitas vezes notei, era o tipo de consulta para a qual nem o paciente e nem o médico estavam atrasados.

Este pensamento me deu um grande conforto como um jovem médico. Eu estava lá para ajudar, mas eu não podia ser completamente responsável por tudo o que acontecia. Pacientes tomam decisões e, de forma última, Deus toma decisões que afetam o resultado final.

Então, como eu poderia ter confortado melhor o meu amigo? E, como nós, conselheiros, colocamos em perspectiva as más escolhas que os nossos aconselhados tomam? Onde encontramos conforto?

O sofrimento da perda é normal

Há muitas formas pelas quais sofremos quando nossos aconselhados caem. Nossos corações são feridos por suas ações como qualquer outra pessoa. Conselheiros não podem se isolar da mágoa que vem quando seus aconselhados escolhem pecar. Paulo fala sobre isso em sua segunda cara aos Coríntios.

A igreja de Corinto havia caído. Havia caso de adultério, embriaguez durante a ceia, e divisões orgulhosas no corpo que Paulo abordou em sua primeira carta. Foi uma epístola contundente que Paulo disse que trouxe sofrimento a eles, mas que ele não se arrependia. Durante aquele período, Paulo descreveu a si mesmo como não tendo descanso, afligido por todos os lados, experimentando conflitos e medos (2 Coríntios 7.5).

Se Paulo esteve tão perturbado com o comportamento dos seus “aconselhados,” é razoável esperar que também fiquemos. Eu me lembro de ler sobre como psiquiatras na década de 1960 tentavam manter uma distância emocional dos seus pacientes, até ao ponto de não reconhecerem a presença dos seus pacientes se os encontrassem na rua. Deveria haver uma barreira entre o profissional e o pessoal. Aconselhamento bíblico deve ser diferente.

Nós não aconselhamos pessoas com as quais não temos nada além do que um vínculo profissional. Somos irmãos e irmãs com aqueles que buscamos ajudar. Como o autor de Hebreus disse sobre Jesus, nós não somos o tipo de pessoa que não podem “compadecer-se das suas fraquezas” (Hebreus 4.15).

Então, estar prevenido é estar preparado. É normal lamentar as perdas que acontecem quando nossos aconselhados escolhem pecar. Espere por isso. E não se sinta obrigado a pedir desculpas por isso.

Pessoas tomam decisões!

Também será útil lembrar-se de que quando pessoas tomam decisões, eles, e não você, são responsáveis pelas escolhas deles. Eu já ouvi amigos e conselheiros dizerem, “E se eu tivesse dito algo diferente?” Eu já pensei nessas coisas também.

Nessas ocasiões, eu me lembro de que Jesus conheceu um jovem rapaz uma vez, que era rico e veio perguntando, “O que eu devo fazer para herdar a vida eterna?” A passagem de Marcos 10.17–27 diz que olhando para ele, Jesus o amou. O Senhor disse a ele para vender todas as suas coisas, dar o seu dinheiro, e segui-lo. O jovem rapaz foi embora triste. Eu imagino que foi uma decepção para Jesus, ver alguém que ele amou tomando uma decisão errada.

Pessoas tomam decisões, e nós não somos responsáveis por eles ou por suas escolhas. Somos responsáveis por compartilhar as Escrituras com eles, ama-los, e orar por eles—mas nós não somos responsáveis quando eles tomam uma decisão errada.

Deus toma decisões!

Deus também toma decisões na vida dos nossos aconselhados. Uma passagem que todo conselheiro deve conhecer é 2 Timóteo 2.24–26: “Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade”.

Essa passagem descreve o caráter e o comportamento de qualquer um que ministra a Palavra. Diz que devemos ser pacientes, bondosos, gentis, aptos a ensinar, e não argumentativos. E, enquanto suavemente corrigimos o desafio da oposição, devemos manter em mente de que é Deus quem concede arrependimento e não nós.

Eu não posso fazer pessoas se arrependerem com palavras astutas ditas com destreza. Eu não posso escolher por eles. O Deus soberano do universo tem uma escolha a fazer em tudo isso. Eu sei que ele escolhe de uma forma amorosa, bondosa, justa, e graciosa. Então, é como os meus atendimentos médicos de 15 minutos. Nós não estamos sozinhos nas escolhas que fazemos no aconselhamento, e nossa responsabilidade é limitada.

Esperança é algo bom

Finalmente, há esperança. Mesmo quando um cristão escolhe ignorar o bom conselho e fazer algo errado, ainda há esperança. Há esperança de que eventualmente eles irão se arrepender e começar a tomar boas decisões. Em Mateus 21.28–31, Jesus nos dá um exemplo sobre isso quando ele descreve o filho que inicialmente se recusou a fazer o que o seu pai pediu, mas que eventualmente se arrepende e faz. Quando o aconselhado termina o aconselhamento e não está indo bem, não significa que Deus acabou de lidar com seu filho. Como conselheiros, podemos ter grande esperança nessa verdade. Mesmo que não os vejamos novamente nessa vida, temos a esperança de que os veremos no céu, e isso deve ser um conforto para todos que aconselham.

Questões para reflexão

Você já lutou ou tem lutado com escolhas erradas dos seus aconselhados? Com quem você conversou sobre isso?

[Este post, de autoria de Charles Hodges, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Gustavo Santos e republicado mediante autorização.]

Escrito por Gustavo Santos

Gustavo Santos é engenheiro, e mestrando em Divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette, IN, EUA). Atualmente, serve como estagiário na Igreja Batista Maranata em São José dos Campos - SP.

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