Como Enxergar Além das Falhas e Ver a Necessidade

O profeta Isaías chamou o Salvador que viria de “Maravilhoso Conselheiro” (Isaías 9.6). Não é estarrecedor que poucos estudiosos do aconselhamento bíblico tenham se empenhado no estudo do Maravilhoso Conselheiro como exemplo maior? Fui profundamente impactado e encorajado na medida que prestei maior atenção em nosso Senhor e como ele lidava com as pessoas. Segue um exemplo de João 4.5–28.

O Maravilhoso Conselheiro é diferente

Jesus, estando cansado de sua viagem, estava sentado ao lado do passo, e era a sexta hora. Por que essa mulher está chegando na sexta hora? Porque todos na cidade conheciam seu estilo de vida e ela estava cheia de vergonha. Ela não se atrevia a olhar nos olhos rejeitadores de seu povo.

O Maravilhoso Conselheiro começou a conversar com essa mulher. Posso lhe perguntar uma coisa? Vamos dizer que você conhece essa mulher e sabe do estilo de vida que ela leva. Ela é da sua cidade, do seu bairro, ou “pior”, ela é membro de sua congregação e você descobriu sobre seu modo de vida. Ela teve cinco maridos e o homem com quem ela agora vive não é seu marido. As chances seriam grandes de, já nesse ponto, estarmos caminhando na direção errada com ela ao tratar de suas ações pecaminosas “de frente”. Mas o Maravilhoso Conselheiro sabe melhor – o fato dela dormir com vários homens não é o problema maior. Suas ações pecaminosas de adultério são os frutos podres que provém de um problema fundamental muito mais profundo, enraizado em seu coração. Ela ainda segue os antigos esquemas de Satanás, crendo que a vida vivida para ela mesma é a melhor vida a ser encontrada.

O Maravilhoso Conselheiro é profundo

O tratamento de Cristo é muito mais profundo. Cristo não está satisfeito em somente lidar com as ações pecaminosas dela. Ele está prestes a ensiná-la sobre o princípio fundamental de que todos nós fomos criados para algo maior do que viver para nós mesmos. Com o fim de mostrar essa verdade, ele a aborda e pede por água. Ao atrair atenção para a sede física, nosso Maravilhoso Conselheiro usa um método de ensino comum aos Judeus, partindo daquilo que se conhece para aquilo que não se conhece. Buscar água a essa hora do dia mostra que a mulher tinha consciência de sua sede física. Cristo está usando essa ilustração da água física e da sede física para ensiná-la a lição crucial de que seu maior problema não está no que é físico, mas no que é espiritual. Ainda pior, ela tenta satisfazer uma sede espiritual por meios físicos.

O Maravilhoso Conselheiro ensinada pacientemente

Como é diferente o tratamento de Cristo no aconselhamento dessa mulher adúltera. O versículo 10 torna muito claro o que distingue o Maravilhoso Conselheiro de muitos outros conselheiros hoje. Cristo sabe que essa mulher não conhece a dádiva de Deus. Ela não conhece o que significa viver em um relacionamento próximo e íntimo com o Deus vivo. Ela não tem ideia do que significa aproveitar um relacionamento redimido e reconciliado com aquele para quem ela foi criada. Ela sabe muito bem que ela é um ser relacional, mas está buscando satisfação meramente no âmbito horizontal, sem saber do relacionamento vertical para a qual foi criada e que foi quebrado pelo pecado. Portanto, a porção principal do aconselhamento de Cristo consiste em ensinar, ao invés de repreendê-la por suas ações pecaminosas. Ele está mostrando que ela tem buscado satisfação meramente no mundo físico, enquanto seu verdadeiro problema está no que é espiritual. A mulher está buscando satisfação nos relacionamentos horizontais, mas Cristo lhe está apontando para Deus como o relacionamento mais importante e supremo. Ele não foca nas consequências pecaminosas de seu estilo de vida egocêntrico. O Maravilhoso Conselheiro consegue enxergar além das falhas dela e ver sua necessidade.

Muitas vezes, no aconselhamento, focamos somente em repreender e corrigir. Sem dúvida, esses são elementos fundamentais do aconselhamento bíblico (2 Timóteo 3.16). Contudo, podemos aprender com o Maravilhoso Conselheiro que mesmo a repreensão e a correção devem ser feitas olhando para além do nível do comportamento. O homem vive a partir de seu coração (Provérbios 4.23) e é por isso que Cristo ensina a mulher primeiramente sobre a verdadeira natureza de seu problema (João 4.7–15), antes de repreender suas ações (v. 16–18) e corrigir seu modo de pensar (v. 19–26).

O Maravilhoso Conselheiro aponta para satisfação infinita

Muitos comentaristas acreditam que a mulher, intimidade por Cristo conhecer tanto de sua vida, tentou mudar de assunto no versículo 19. No entanto, penso que ela estava muito mais próxima do objetivo que os observadores poderiam imaginar. Essa mulher estava acompanhando o ensinamento de Cristo e suas ramificações bem de perto, chegando à inevitável conclusão: se isso é realmente verdade, que eu fui criada como uma adoradora, e, portanto, verdadeira satisfação não pode ser encontrada na adoração da criação ou do “eu”, mas somente no viver para Deus, onde então posso encontrar esse Deus verdadeiro para quem fui criada? Como uma samaritana, ela tinha dúvidas se o Deus de seus antepassados no Reino do Norte era o Deus verdadeiro, ou se o Deus que era adorado em Jerusalém, no Reino do Sul. Ela não está mudando de assunto, mas tentando esclarecer que é esse único e verdadeiro Deus, para que ela possa ter um relacionamento íntimo e que satisfaça sua vida. O Maravilhoso Conselheiro corrige o ensino falso dos samaritanos e aponta ela para o verdadeiro Deus de Judá. Ao mesmo tempo, ele revela à mulher que a verdadeira adoração e comunhão com esse Deus vivo não é algo limitado a um certo templo ou localização. Verdadeira adoração é firmada em uma comunhão íntima com Deus em espírito e em verdade. É um relacionamento que valorizamos e no qual nos deleitamos no nível do coração. Quem quiser usufruir dessa comunhão com o Deus vivo deve fazê-lo com afeições espirituais e com verdadeira sinceridade.

Estudando somente esse pequeno encontro de Cristo com a mulher junto ao poço, pudemos aprender diversas lições com o Maravilhoso Conselheiro:

  • Precisamos construir um relacionamento com nossos aconselhados para termos acesso aos seus corações.
  • Não devemos limitar nosso foco nos comportamentos pecaminosos externos; precisamos enxergar além das falhas e ver a necessidade.
  • Verdadeira transformação bíblica é sempre acompanhada de um relacionamento amoroso com Deus, Criador e Salvador; o indicativo deve impulsionar o imperativo.
  • Verdadeiro “sucesso” no aconselhamento não é visto somente nas mudanças externas do comportamento, mas numa mudança de adoração que acontece no nível do coração.
  • Repreensão é parte vital e legítima do aconselhamento bíblico, mas não podemos ignorar o quanto nossos aconselhados precisam de um ensino verdadeiro e de uma correção amorosa.
  • O objetivo maior de qualquer aconselhamento bíblico é ajudar pessoas a viver uma vida de adoração e amor para com aquele para quem foram criadas e por quem foram salvas.
  • Verdadeiro aconselhamento bíblico não se satisfaz com mudanças comportamentais, mas com um coração que se submete voluntariamente, em amor e alegria, ao seu Criador e Salvador, em espírito e em verdade.

[Este post, de autoria de Michael Leister, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Lucas Sabatier e republicado mediante autorização.]

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC (Association of Certified Biblical Counselors) e mestrando em teologia prática pelo Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). É também advogado, formado em Direito pela PUC de São Paulo, e mestre em divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA). É casado com a Isabella, e pai da Ana Luisa e da Sophie.

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Este artigo tem 1 comentário

  1. Simone Botileiro Responder

    Muito bom o artigo! Obrigada por nos lembrar da verdade que precisamos imitar o Maravilhoso Conselheiro diariamente!

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