Deus no banco dos réus

Você já percebeu que vivemos em um mundo muito egocêntrico e egoísta? A vida passou a ser tudo sobre “mim”. Muitas pessoas acreditam que o mundo deveria girar em torno de seu próprio conforto, suas necessidades e seus direitos. E quando Deus não faz por nós o que achamos que ele deveria fazer, somos capazes de nos indignar muito e começar a julgá-lo.

Ajudando uma aconselhada

Considere este cenário: uma aconselhada procura ajuda para entender as dificuldades pelas quais está passando ou por mágoas do passado. Ela diz que é uma seguidora de Cristo e sabe que ele a salvou. No entanto, ela não entende o que está acontecendo em sua vida.

Depois de passar um tempo conhecendo-a e ouvindo sua história, percebo que pecaram contra ela de maneiras muito significativas e graves — maneiras que entristecem o coração de Deus. Então, inevitavelmente, chego à razão pela qual ela veio para aconselhamento: Por quê?

Por que eu? Por que isso? Por que um bom Deus permitiria que essas coisas acontecessem comigo?

Pressupostos iniciais

Muitas vezes, começamos com pressupostos errados. Presumimos que Deus é muito parecido conosco — que ele pensa como nós e que deseja as coisas que nós queremos. Presumimos que o principal desejo de Deus por seus filhos é satisfazer todos os nossos desejos e necessidades. Temos a ideia de que ele satisfazer os nossos caprichos e tornar nossas vidas confortáveis. Acreditamos que seu maior objetivo é garantir que seus filhos sejam felizes, e esperamos que ele mova o céu e a terra para cumprir isso.

Outra suposição relevante é a de que o amor e o caráter de Deus podem ser julgados de acordo com nossas circunstâncias. Nós o avaliamos de acordo com nossos próprios padrões de como nossas vidas devem seguir. Se ele atinge esse padrão e nos dá o que queremos, ele é ótimo. Se nossas circunstâncias são difíceis ou dolorosas, julgamos que Deus não é bom ou presumimos que ele está retendo o bem de nós. Afinal de contas, ele é soberano e todo-poderoso, então por que ele não está me ajudando?

Verdades bíblicas

Encorajo minha aconselhada a começar com o fundamento correto da verdade bíblica: Deus é bom e tudo o que Ele faz é bom (Salmo 119.68), e não há mal algum nele (Tiago 1.13). Deus é cheio de compaixão e não traz de boa vontade aflição ou tristeza para nossas vidas (Lamentações 3.31–33).

Deus é infinito em sabedoria; seus caminhos são mais elevados do que os nossos caminhos, e seus pensamentos são mais elevados do que os nossos pensamentos (Isaías 55.9). Ele sabe exatamente como nossas vidas devem se passar e o que será necessário para nos conformar e nos transformar à semelhança de Cristo. E ele está disposto a nos deixar atravessar o fogo para testar e purificar nossa fé (1Pedro 1.6–7).

Não estou tentando evitar as perguntas difíceis que minha aconselhada tem, mas estou orando para que ela entenda que há mais do que apenas suas dificuldades. Preciso ajudar minha aconselhada a entender que nosso conhecimento é insuficiente e limitado. Há muitas coisas que não sabemos ou não podemos entender nessa vida terrena. Quando fixamos nossos olhos no aqui e agora (o temporal), negligenciamos o que está sendo realizado no reino eterno (2Coríntios 4.16–18).

Eu explico que não estamos em posição de julgar ou avaliar o caráter de Deus com base em nossas circunstâncias ou por nosso próprio entendimento. Se pudéssemos julgar o caráter de Deus de acordo com as circunstâncias, quais são algumas das possíveis conclusões que poderíamos apresentar quando consideramos a crucificação de Jesus Cristo, aquele que pagou o preço com sua vida para redimir rebeldes ímpios e os reconciliar com Deus?

Considere Jó

Depois da avaliação positiva de Deus acerca de Jó, Satanás disse a Deus: “Jó teme a Deus por nada?” Em outras palavras, será que Jó seguia a Deus principalmente pelo que Deus poderia fazer por ele? Ou ele amava a Deus apenas por ser quem ele é? O sofrimento revela se isso também é verdade para nós. O sofrimento muitas vezes revela os tesouros dos nossos corações. Ao passarmos pelo sofrimento, muitas vezes Deus nos revela se o nosso maior desejo é exaltar e glorificar o Senhor Jesus Cristo.

Quando nossos desejos (ou demandas) não são atendidos, será que ficamos mais preocupados com Deus explicando e respondendo às nossas perguntas sobro o “por quê”? Estamos mais preocupados em encontrar alívio do que em encontrar Deus? Seguimos a Cristo principalmente por causa do que ele faz por nós ou nos dá, ou porque ele é digno de nossa adoração como nosso Salvador e Senhor?

Estamos dispostos a nos submeter à vontade de Deus para nossas vidas, mesmo que isso inclua circunstâncias difíceis? Nossas almas podem estar em paz sabendo que sua misericórdia e graça nos ajudarão nas provações, mesmo que não tenhamos todas as respostas (Hebreus 4.16)?

Deus não é obrigado a explicar suas ações em nossas vidas ou a nos dizer o que ele pretende com nossas duras circunstâncias. Devemos caminhar pela fé e confiar que de alguma forma, em algum tempo, de alguma forma Deus irá fazer com que todas as coisas cooperem para o nosso bem, para nos conformar à semelhança de seu Filho (Romanos 8.28–29). Enquanto isso, podemos confiar nele?

Confiar é um processo

Não se chega a esse ponto de confiar em Deus em circunstâncias difíceis da noite pro dia. Isso exige escolhas deliberadas, conscientes e intencionais. É preciso disciplina para ser sempre alegre, orar continuamente e dar graças em todas as circunstâncias (1Tessalonicenses 5.16–18). No entanto, é isso que Deus nos pede para fazer e, felizmente, ele promete a sua graça para nos capacitar a obedecer.

Quando começamos com o fundamento na verdade bíblica conforme revelada na Escritura, somos capazes de avaliar e interpretar os eventos de nossas vidas através dos pressupostos corretos. Veremos que não estamos em posição de julgar a Deus. Isso nos ajuda a depositar confiança no caráter de Deus enquanto dependemos de sua graça para que possamos honrá-lo, glorificá-lo e experimentar sua paz no meio das tempestades da vida.

Pode ser que Deus não ofereça à minha aconselhada todas as respostas que ela deseja, mas ela pode escolher confiar nele em vez de julgá-lo. Por meio do sofrimento de Jesus em nosso favor e por seu Espírito, Deus nos permitirá regozijar em nossos sofrimentos, porque o sofrimento produz perseverança, a perseverança produz caráter, e o caráter, esperança. E a esperança não nos decepciona, pois Deus derramou seu amor em nossos corações (Romanos 5.1–5). Podemos ter certeza de que Deus entende e se importa, e que sua graça será suficiente.

Perguntas para reflexão

Quando a vida é difícil, você questiona a bondade ou o caráter de Deus? Que verdades da Escritura ajudaram você a confiar nele, mesmo quando ele não se explicou a você? Como você aconselha os outros quando eles têm perguntas difíceis?

 

[Este post, de autoria de Bev Moore*, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Lucas Sabatier e republicado mediante autorização.]

*Bev Moore faz parte da equipe de conselheiros da Faith Church, em Lafayette, Indiana, EUA. Ela é casada com George e têm dois filhos adultos. É também coautora do livro “Aftermath: Past the Pain of Childhood Sexual Abuse”.

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC e doutorando (Ph.D.) em aconselhamento bíblico no Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). Obteve seu M.Div. no Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA) e Th.M. no Southern Baptist Theological Seminary. É também advogado formado na PUC–SP. Lucas é casado com a Isabella desde 2011 e é pai da Ana Luisa e da Sophie.

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