Entendendo o Eu: Criado, Caído, Redimido

A maneira como vemos e definimos nós mesmos afeta profundamente a forma como pensamos, sentimos, agimos e, é claro, como adoramos a Deus. Um conselheiro bíblico escreveu: “A mentira adotada pela cultura contemporânea é que nossa existência — as coisas que fazemos, as experiências que temos, os pensamentos e sentimentos subsequentes — define quem somos, nossa essência”. [1] Antes de receber aconselhamento bíblico, encontrava minha identidade em muitas outras coisas que não em Cristo, todas levando ao sofrimento e ao pecado. Um ponto crucial para minha santificação progressiva foi me definir através das lentes da Escritura, o que, por sua vez, levou-me a apontar meus aconselhados a fazer o mesmo.

Para conceituar biblicamente o ‘eu’, sou grata pela articulação do teólogo John Stott:

Nosso eu é uma entidade complexa de bem e mal, glória e vergonha, de criação e queda… Somos criados, caídos e redimidos, então recriados à imagem de Deus… Estando diante da cruz, vemos simultaneamente nossa dignidade e indignidade, visto que percebemos tanto a grandeza de seu amor ao morrer, como a grandeza de nosso pecado em fazer com que ele morresse. [2]

Quando nossos aconselhados se veem como criados, caídos e redimidos (ou necessitados de redenção), isso transforma seu relacionamento e adoração ao nosso Redentor Triuno, e ajuda a colocar em perspectiva o problema pelo qual vieram para o aconselhamento.

Criado

A partir de Gênesis 1, sabemos que Deus é o Criador e que somos criados por ele. Surpreendentemente, fomos criados à sua imagem (Gênesis 1.27) e era “muito bom”! Na graça comum, todos nós refletimos um pouco da bondade da imagem de Deus, independentemente de sermos cristãos ou não. E por que fomos criados? “Nosso propósito principal é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre” [3] (cf. Apocalipse 4:11). Isso fornece ao aconselhado o contexto apropriado para sua existência e propósito, em vez de identidades e propósitos falsos e idólatras.

Caído

Infelizmente, como sabemos em Gênesis 3, ser criado à imagem de Deus para a sua glória não é o fim. Antes de receber aconselhamento bíblico, eu sinceramente tinha dificuldade em entender minha condição caída. [4] Quando aceitei a Cristo como meu Salvador durante meu curso de graduação, achei que estava pedindo perdão pelos meus pecados passados e que agora tinha recebido entrada no céu um dia. Eu acreditava que era uma pessoa muito boa; estava trabalhando como psicóloga no centro da cidade, tentando, ao menos, aliviar a opressão e o sofrimento das pessoas. Enquanto a parte criada do eu buscava trazer justiça e fazer o bem aos outros, minha parte caída tinha (tem?) um complexo de salvadora que me levava a pensar que poderia de alguma forma salvar as pessoas com minha própria bondade e caridade, ao invés de apontá-las para sua necessidade, para o Salvador ressuscitado. Eu não via o orgulho e a autossuficiência do meu coração, tampouco minha inclinação para o pecado.

Quando comecei a compreender melhor a profundidade da minha condição caída, a cruz tornou-se relevante não apenas para os meus pecados passados, antes de aceitar a Cristo, e meu futuro no céu, mas também para minha necessidade atual de constante dependência dele. Vindo de fora da “bolha” da teologia conservadora e do aconselhamento bíblico, para mim a palavra “pecado” costumava parecer tão dura e crítica que somente fariseus hipócritas e traidores odiosos a usariam. Lembro-me distintamente de um professor de teologia (não da TMU) referir-se a um colega que chamou isso de “teologia do verme” e se recusou a cantar a frase do hino “Preciosa Graça” que diz “um pecador como eu”. Mas a Escritura está repleta de referências à necessidade de lutar contra o pecado (e.g., Hebreus 12.1) e de despir-se do velho homem (Efésios 4.22; Colossenses 3.9). Como Paulo, vejo a necessidade de ser liberto do corpo desta morte (Romanos 7.24).

Redimido

Saber que eu sou redimida, liberta da escravidão ao pecado pela morte de Jesus Cristo, meu Senhor e Salvador, realmente mudou a forma como me vejo. Em Adão, herdei o pecado, a condenação, a morte e a eterna separação de Deus e tudo o que é bom e santo. Mas em Cristo, eu herdei graça, justificação e vida eterna. Ele me libertou da pena do pecado, está me libertando do poder do pecado, e um dia me libertará da presença do pecado. [5] Minha identidade (como eu me vejo) não depende do meu desempenho, funções, relacionamentos ou minhas circunstâncias terrenas de raça, gênero, idade, status socioeconômico, etc. Em vez disso, há um valor superior em conhecer a Cristo Jesus meu Senhor, ganhando-o e sendo encontrada nele, para um dia ser glorificada (Filipenses 3.8–11).

Saber que sou criada, caída e redimida me ajudou com o ritmo do evangelho: confissão, arrependimento e graça. [6] É um reconhecimento constante da minha necessidade da misericórdia e da graça de Deus, enquanto vivo contemplando a glória do Senhor e sendo transformado na semelhança de Cristo de glória em glória (2 Coríntios 3.18). Por fim, conhecer minha condição de criatura, de queda e de redenção ajuda a me proteger dos dois lados do orgulho, seja pensando muito ou pouco de mim mesmo. Acima de tudo, em vez de olhar muito para mim mesmo, isso me ajuda a fixar meus olhos em Jesus, o autor e consumador da minha fé (Hebreus 12.2).

 

[1] Pierce Taylor Hibbs, “A House Built upon the Rock: Finding Our Identity in Christ,” Journal of Biblical Counseling 28, no. 2 (2014): 55.
[2] John Stott, The Cross of Christ (Downers Grove, IL: Intervarsity, 2006), 282, 285.
[3] Catecismo de Westminster.
[4] Várias passagens bíblicas esclarecem nossa condição caída. Eu particularmente gosto de usar Romanos 3.10–11 e 3.23, Salmo 51.5, e Isaías 53.6. Com o aconselhado mais sofisticado, uso também Romanos 5.12–21, e o conceito de que somos em Adão versus que somos em Cristo.
[5] Creio que Romanos 6 é muito útil no auxílio ao aconselhado no que diz respeito à liberdade do pecado, a viver a identidade em Cristo e ser um servo da justiça.
[6] Obrigado, Pastor Kim Kira, pelo conceito de “ritmo do evangelho”.

 

[Este post, de autoria de Jenn Chenn, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Lucas Sabatier e republicado mediante autorização.]

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC (Association of Certified Biblical Counselors) e mestrando em teologia prática pelo Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). É também advogado, formado em Direito pela PUC de São Paulo, e mestre em divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA). É casado com a Isabella, e pai da Ana Luisa e da Sophie.

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