Humildade

É humilhante admitir, mas eu quase não fui à minha primeira aula de aconselhamento bíblico por conta de ansiedade. O que começou como uma apreensão acerca da qualidade dos meus trabalhos e da minha performance, tornou-se ansiedade sobre como poderia eu ser uma conselheira bíblica se o temor a homens ainda consumia meu coração. Mal sabia eu que Deus usaria meu pecado como contexto para revelar os graciosos meios dele usa outras pessoas na luta pela santidade.

Na medida que Deus me humilhou ao revelar meu pecado, Ele também me exemplificou o que é humildade por meio do cuidado de uma colega. Em minha primeira noite no campus, encontrei-me com uma senhora que descobriu minha dificuldade e rapidamente começou a me ajudar. Minha amiga me ofereceu um modelo de humildade em dependência no Senhor e em confiança na sua Palavra, e, no processo, me ensinou a importância da humildade no aconselhamento daqueles que sofrem. Abaixo estão algumas lições sobre humildade, que aprendi por meio dessas experiências, e sobre como ajudar outros.

Humildade em dependência:

  • Minha nova amiga expressou humildade em dependência no Senhor. Ela ofereceu compaixão e uma fé sólida a partir de como Deus a ajudou no passado. Uma vez que ela mesma lutou com seus próprios desejos, ela pode me auxiliar com uma compaixão humilde. Ela esperava que eu precisasse ouvir as mesmas coisas múltiplas vezes.
  • Ela disse verdades que confrontavam mentiras que eu nem sabia que estava acreditando: ela me lembrou que Deus não me colocou em meio a uma prova para me destruir. Sua dependência da graça de Deus me encorajou a lembrar que a disciplina de Deus é intencionada para o crescimento e pureza, não destruição.
  • Ela ministrou na prática ao me ajudar a entender como nossos corpos reagem à ansiedade. Dormir e comer eram coisas difíceis de fazer, mesmo quando clamava ao Senhor arrependida. Depois de lembrar-me que levaria algum tempo para meu corpo parar de reagir às mentiras que eu estava contando a mim mesma, ela me incentivou a continuar confiando no Senhor em minha fraqueza física.

Humildade em confiança:

  • Apesar de minha amiga ter se simpatizado profundamente com minha dificuldade, seu conselho veio da Palavra de Deus. Ela expressou humildade ao não confiar em sua própria sabedoria, experiência ou capacidade. Ela sabia que a Bíblia somente poderia equipá-la para aconselhar sabiamente. Seguindo o exemplo de Paulo, ela sabia que sua suficiência vinha de Deus (2 Coríntios 3.5).
  • Ed Welch observa que nós frequentemente temos “medo de adentrar as complexidades da vida de alguém. Quem somos nós para ajudar alguém? Nós já temos muitas lutas. Nosso passado torna o nosso presente uma bagunça. O pecado sempre ameaça nos dominar. Nos sentimos quebrados e temos medo de apenas piorar as coisas. Nos sentimos desqualificados” (em “Side by Side”, tradução livre). Em que pese essa hesitação ser real, minha amiga não se acovardou pelo medo ou intimidação que vinham da intensidade das minhas emoções. Mesmo os detalhes do meu sofrimento sendo específicos à minha situação, as tentações e os desejos do meu coração eram comuns (1 Coríntios 10.13).
  • Porque a Palavra de Deus oferece a mesma esperança e auxílio a todos os que sofrem, minha amiga havia sabiamente se devotado ao estudo da Bíblia. Ela buscou bons tesouros em seu coração para compartilhar comigo (Mateus 12.35). Ela me incentivou a me alegrar no fato que o Senhor nos deu as Escrituras para nos mostrar seu caráter e nos dar seu poder em meio a dor.

Humildade em arrependimento:

Não é de se surpreender que minha amiga tenha desenvolvido uma vida de arrependimento que a habilitou a estar humildemente consciente de seu pecado e confiante nos recursos da Palavra de Deus.

Porque ela se arrependia diariamente, ela demonstrou a paciência de Deus e seu poder. Ela amava a Deus e outros porque ela renovava sua consciência nas profundezas do perdão de Deus. Ela podia ajudar porque Deus lhe dava graça, assim como Tiago 4.6 promete: “Ele dá maior graça; pelo que diz: ‘Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes’”.

A resposta de minha amiga ao meu pecado e sofrimento retrata a humildade descrita em uma das resoluções de Jonathan Edwards sobre caráter: “Resolvi ser a todos os níveis, tanto no falar como no fazer, como se não houvesse ninguém mais vil que eu sobre a terra, como se eu próprio houvesse cometido esses mesmos pecados ou apenas sofresse das mesmas debilidades e falhas que todos os outros; também nunca permitirei que o tomar conhecimento dos pecados dos outros me venha trazer algo mais que vergonha sobre mim mesmo e uma oportunidade de poder confessar meus próprios pecados e miséria a Deus.” Minha amiga não se colocava acima de mim em condenação, secretamente conjecturando sobre a razão da minha luta. Ela humildemente falou verdade como se as minhas falhas fossem as suas.

Quando nós cultivamos humildade em nossa caminhada espiritual, permanecemos conscientes de como precisamos da graça e do perdão de Deus diariamente. E essa humildade é essencial para o aconselhamento daqueles que estão sofrendo, pois ela aproxima a graça de Deus. Ela nos alinha com a visão de Deus e transfere nosso foco para Ele e outros. Um coração humilde vê a grandeza de Deus e o poder de seus recursos. Quando sofremos (mesmo que por conta do nosso pecado), Deus nos dá graça na medida que nos humilhamos diante dele. Minha amiga tinha confiança que Deus me daria toda a graça que eu precisava para a prova que estava enfrentando. E Ele assim o fez.

[Este post, de autoria de Andrea Lee, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Lucas Sabatier e republicado mediante autorização.]

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC (Association of Certified Biblical Counselors) e mestrando em teologia prática pelo Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). É também advogado, formado em Direito pela PUC de São Paulo, e mestre em divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA). É casado com a Isabella, e pai da Ana Luisa e da Sophie.

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