Igrejas que Aconselham Biblicamente são Igrejas que Evangelizam

Minhas primeiras impressões sobre o aconselhamento bíblico estavam erradas. No mínimo, incompletas. De início, via no aconselhamento bíblico a solução para o problema da falta de cuidado pastoral individual, uma deficiência em muitas igrejas. Entendia que o ministério de aconselhamento bíblico é algo voltado para os membros da igreja local, enquanto a equipe de evangelismo se ocupa da tarefa de alcançar os “de fora”. Não demorou muito para eu perceber meu equívoco. Essas duas tarefas ministeriais tinham em comum seu elemento central — o anúncio das boas novas de Cristo — e não podiam, portanto, ser desassociadas.

Mas como podemos entender, então, a relação do aconselhamento bíblico com o evangelismo? A resposta a essa pergunta se encontra na análise de alguns tipos de cenários que se apresentam no contexto do aconselhamento.

Aconselhando o descrente

De fato, ministrar os imperativos bíblicos a alguém que rejeita a graça do evangelho irá apenas colocar mais peso no fardo da autojustificação. Neste sentido, o aconselhamento bíblico não serve ao não cristão. No entanto, problemas se apresentam no aconselhamento como oportunidades de ministério, inclusive para apresentação do evangelho ao descrente. E isso acontece porque problemas e crises geralmente desafiam a cosmovisão e as convicções seculares do indivíduo que sofre.

O ministério de Jesus evidenciou isso. Ele ministrou o perdão de pecados àqueles que buscavam curas físicas. Ele anunciou salvação àqueles que eram socialmente rejeitados. Jesus promoveu o seu reino ao encontrar o necessitado em sua necessidade e oferecer-lhe algo superior, algo mais sublime — o próprio Deus, por toda a eternidade. Jesus não se colocava como um “aproveitador” das circunstâncias dos outros. Pelo contrário, ao se mostrar compassivo, Jesus atestava seu amor que lhe motivava a oferecer algo tão precioso — amor esse que o levou a morrer por pecadores.

O conselheiro bíblico sábio, portanto, assim como Jesus, usará as oportunidades das crises e dos problemas para amorosa e compassivamente apresentar o Deus da Bíblia, que se importa com o homem, com suas lutas e sofrimentos.

Aconselhando alguém incerto ou confuso

 Por vezes, é difícil dizer se o aconselhado realmente conhece a Cristo. Muitos dizem ser cristãos, mas mal conseguem articular o evangelho. Outros até conseguem, mas suas vidas são caracterizadas longamente por tanto pecado, que fica difícil acreditar (1 João 3.6). Em casos assim, me alegro em poder confiar no Deus que discerne o coração e no fato de que tal avaliação final não é minha tarefa como conselheiro. Minha tarefa é apenas anunciar Cristo (Colossenses 1.28), chamando o aconselhado ao arrependimento.

De um jeito ou de outro, em tais casos, o aconselhamento certamente terá algum impacto evangelístico — mesmo que tal impacto nem sempre seja desvendado claramente ao conselheiro. Caso se trate de alguém com um coração não regenerado, a confrontação graciosa baseada na apresentação das boas novas de Cristo constitui, em si, evangelismo. Caso se trate de um crente com muitas dificuldades de caminhar, o auxílio na sua luta contra o pecado resultará em importante testemunho do poder transformador da cruz a todos os que estão ao seu redor.

Aconselhando o cristão

 “Ovelhas saudáveis se reproduzem”, um professor me ensinou. A tarefa do aconselhamento bíblico é essencial para manter as ovelhas da igreja local em um estado espiritual saudável, vez que o efetivo aconselhamento lida biblicamente com o pecado e com o sofrimento, visando a santidade e o consolo encontrados em Cristo. Ovelhas que verdadeiramente experimentam o poder transformador e consolador do evangelho em suas lutas e dores irão inevitavelmente proclamar a impactante mensagem da cruz.

Uma perspectiva realista da igreja local reconhece que os membros que ali congregam ainda não alcançaram a perfeição (Filipenses 3.12–14). A luta contra o pecado é algo real (Romanos 7.19) e a igreja faz parte da provisão graciosa de Deus para o processo de transformação do povo de Deus. O aconselhamento bíblico auxilia o membro da igreja identificar seus pecados e a lidar com suas lutas de modo a vivenciar o evangelho e glorificar a Deus em comportamentos transformados, redimidos. É na cruz de Cristo que se encontra o poder redentor capaz de transformar o coração — e, consequentemente, as atitudes. O cristão que aprende a correr para a cruz para vencer o pecado será um testemunho vivo e impactante no meio em que estiver, quer seja no trabalho, na escola, ou em sua vizinhança.

Da mesma forma, o conselheiro bíblico busca consolar e confortar o sofredor, lembrando-o de um Deus amoroso e soberano, que perfeitamente administra seus bons propósitos em sua vida e naqueles em sua volta. Quando o cristão passa por provações, ele é chamado a reagir de maneira santa às circunstâncias. A fé provada e aprovada, então, brilhará mais forte. A suficiência de Cristo na vida de cristãos maduros que permanecem fiéis e perseverantes em meio às crueldades da vida cria um contraste difícil de ser ignorado. Assim, o cristão que corre para a cruz a fim de lidar com seu sofrimento também será um testemunho vivo e impactante em seu contexto.

Em geral, o aconselhamento bíblico busca ajudar o cristão a substituir os hábitos do velho homem por aqueles do novo homem (Efésios 4.22–24). O objetivo não é simplesmente fazer cessar aquilo que é errado, mas promover o que é correto. Afinal, o ladrão deixa de ser ladrão não quando para de roubar, mas quando passa a trabalhar para amorosamente ajudar o necessitado. “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Efésios 4.28). Assim, o propósito do aconselhamento bíblico é ajudar indivíduos da igreja a serem proativos no amor ao próximo e no serviço ao reino de Deus — e isso certamente inclui a proclamação da mensagem da cruz nos mais diferentes contextos.

Conclusão

 Recentemente, ouvi acerca de uma igreja na qual mais de 50% de seus aproximados 2000 membros ingressaram por meio de seu exemplar ministério de aconselhamento bíblico. Isso porque uma igreja que aconselha é uma igreja que naturalmente evangeliza. Aconselhar biblicamente faz parte do processo de ajudar pessoas a brilharem a luz de Cristo mais forte em seus respectivos contextos. Além disso, muitas vezes, é no próprio contexto do aconselhamento que Deus dá a oportunidade ao conselheiro de ver essa luz brilhar no aconselhado pela primeira vez. Direta ou indiretamente, aconselhamento bíblico necessariamente resulta em evangelismo. Afinal, o evangelho que salva vidas é o mesmo que continua a transformá-las.

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC e doutorando (Ph.D.) em aconselhamento bíblico no Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). Obteve seu M.Div. no Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA) e Th.M. no Southern Baptist Theological Seminary. É também advogado formado na PUC–SP. Lucas é casado com a Isabella desde 2011 e é pai da Ana Luisa e da Sophie.

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Este artigo tem 1 comentário

  1. Alex Mello Responder

    Excelente artigo Lucas. Então nossa igreja, Batista da Fé em São José dos Campos, estamos começando um programa de Aconselhamento Bíblico voltado para a comunidade. A ideia é justamente alcançar os não crentes com a mensagem do evangelho, enquanto os ajudamos a lidar com seus problemas imediatos.
    Você sabe o nome da igreja que citou no artigo?
    Que Deus continue a abençoar sua vida e a usa-lo neste ministério.

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