Mais do que um Manual de Instruções

“A Bíblia é o nosso manual de instruções para a vida” é um dos dizeres mais populares dentro do mundo do aconselhamento bíblico. “Visto que Deus nos criou e projetou como devemos funcionar melhor em Seu mundo”, argumenta-se, “Ele nos deu um manual do proprietário (seu manual) para seguir”. Esse mantra e seu raciocínio correspondente são verdadeiros até certo ponto. Mas será que essa descrição é suficiente? Acho que não. Deixe-me explicar.

Quanto mais eu me envolvo com o treinamento de homens e mulheres para o ministério de aconselhamento e discipulado, mais me preocupo com a precisão dessa ideia, vez que tende a resultar em um aconselhamento estereotipado. Se você está envolvido em algum ministério da Palavra de Deus por qualquer período de tempo, o Espírito Santo provavelmente já destruiu sua noção de que existem fórmulas seguras para ajudar uma pessoa a resolver seus problemas. Em vez disso, você está provavelmente começando a entender que o ministério da Palavra através do aconselhamento é mais uma questão de estimular o discipulado contínuo, o que às vezes é um caminho longo, acidentado e sinuoso.

Então, será que existem maneiras mais completas e ricas de pensarmos sobre a Escritura, que por sua vez nos ajudarão a ser mais eficazes na assistência a outros que buscam caminhar na direção da semelhança com Cristo? Acho que sim. Aqui apresento três analogias para você considerar.

1. A Bíblia é a autorrevelação de Deus

Mais do que considerar a Bíblia como um manual de instruções enfocando a criatura (nós), precisamos abraçar a Escritura como a autorrevelação infalível de Deus, através da qual ele realmente se revela. Através da criação, Deus revelou seu poder e majestade para todos verem (Salmos 19.1–6; Romanos 1.20). Mas é somente através da mensagem da Escritura, cristalizada no evangelho, que chegamos a experimentar o poder transformador da graça redentora de Deus, em um relacionamento com ele, através de Cristo (Salmo 19.7–12; João 15.4–5). Para que esse relacionamento prospere, precisamos crescer conhecendo melhor a Deus—sua majestade, poder, glória, misericórdia, amor e soberania (entre outros). Conhecer a Deus, bem como saber que ele está intimamente familiarizado conosco, estabiliza nossas almas. Quando o Espírito Santo usa a Escritura para nos levar a um relacionamento mais próximo com Deus, nós nos tornamos refletores mais precisos de sua glória. Consequentemente, quando você aconselha outros, você tem elaborando projetos pessoais que os levem além do conhecimento de princípios bíblicos, mas para um conhecimento do Deus que os inspirou?

2. A Bíblia é o nosso pão necessário

Mais do que um manual do proprietário, cheio de fórmulas para viver piedosamente, a Escritura é o alimento que satisfaz a alma, no qual devemos nos deleitar (Salmo 119.16, 77). À medida que crescemos em valorizar a Palavra de Deus, gradualmente percebemos que nossa alma não pode prosperar sem ela, e nossa determinação de permanecer forte diante da tentação se fortalece. Quando Satanás tentou Jesus a transformar pedras em pão egoisticamente para remediar sua própria fome, Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’” (Mateus 4.4). E o profeta Jeremias testificou: “Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR, Deus dos Exércitos” (Jeremias 15.16). Consequentemente, quando você aconselha outros, você tem ministrado a Palavra a eles de tal maneira que seu paladar espiritual seja estimulado e seu apetite aumentado?

3. A Bíblia é um espelho que revela nosso verdadeiro eu

Mais do que um manual do proprietário que explica como a vida funciona melhor, a Escritura é um espelho poderosamente penetrante, que reflete a verdadeira condição de nossa alma. Toda manhã (espero!), todos nós olhamos para um espelho a fim de nos certificarmos de que estamos pelo menos apresentáveis para o resto da humanidade. Mas, por mais que todos nós gostássemos de ter um espelho que sempre nos faça parecer bem, os espelhos não mentem. Eles nos trazem boas e más notícias; eles dão provas de que perdemos ou ganhamos alguns quilos, ou revelam mais uma ruga que apareceu em nossos olhos. A Escritura faz a mesma coisa; revela a maravilhosa graça de Deus para com os pecadores, ao mesmo tempo em que identifica as complicações do coração que permanecem em nós como santos de Deus. Ela nos diz a verdade; revela nosso verdadeiro eu (Tiago 1.22–24). Consequentemente, quando você aconselha outros, você tem elaborado projetos de crescimento que vão além de tomar conhecimento dos princípios bíblicos para treiná-los a meditar na própria Palavra?

A Bíblia é muito mais do que um manual do proprietário. Deus soprou sua mente para que pudéssemos conhecê-lo, nossos corações pudessem nascer de novo e nossas vidas fossem progressivamente transformadas à imagem gloriosa de seu Filho (1 Coríntios 2.16; 1 Pedro 1.23; 2 Coríntios 3.18). À medida que crescemos em nosso afeto pela Escritura como a autorrevelação de Deus, como o pão diário para nossa vida espiritual e como o espelho para nossa autoavaliação e mudança, nosso deleite se tornará contagiante e nosso impacto sobre os outros se multiplicará exponencialmente.

Perguntas para Reflexão

Seu ministério de aconselhamento se tornou o simples compartilhamento de princípios bíblicos ou fórmulas moralistas? Se sim, por que você acha que isso ocorreu? Como você mudará seu aconselhamento a partir das virtudes da Escritura aqui apresentadas?

 

[Este post, de autoria de Paul Tautges, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Lucas Sabatier e republicado mediante autorização.]

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC (Association of Certified Biblical Counselors) e mestrando em teologia prática pelo Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). É também advogado, formado em Direito pela PUC de São Paulo, e mestre em divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA). É casado com a Isabella, e pai da Ana Luisa e da Sophie.

Ver todos os posts do autor →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *