Medicamentos: Certo ou Errado? Sábio ou não? Úteis ou não?

Uma questão que insiste em aparecer em minha vida diz respeito a relação entre aconselhamento bíblico e medicação. Por anos, tem sido dito que aqueles que abraçam o aconselhamento bíblico se opõem ao uso de remédios para o tratamento da depressão e outros transtornos psiquiátricos. No entanto, nos últimos 20 anos, tenho ensinado que tomar remédio para depressão e qualquer outra causa é uma questão de liberdade cristã de Romanos 14. Fico sempre impressionado com a frequência com que tenho que repetir essa afirmação para convencer as pessoas de que estou falando sério.

Sempre que perguntado, tenho consistentemente dito que, uma vez que a Bíblia não diz nada sobre nenhuma droga ou medicação em particular, é privilégio de todo crente poder tomar uma decisão sobre isso. Ao tomar a decisão, eles precisam levar em conta o que toda a Escritura diz sobre sua escolha. Eles devem também considerar como essa escolha afetará os outros ao seu redor.

Como médico praticante, escrevi milhares de prescrições para centenas de diferentes tipos de medicamentos nos últimos 43 anos. Eu vivi na esperança de que a caneta fosse mais poderosa que as doenças! Às vezes isso foi muito verdade. Cinco dólares de penicilina são capazes de curar rapidamente uma dor de garganta comum e geralmente evita a temida complicação da febre reumática. Outras vezes, os remédios que prescrevemos são inúteis, alguns até prejudiciais.

Quando comecei a atuar, em 1975, a maioria de nós tinha um livro chamado Physicians’ Desk Reference (Referência de Mesa do Médico—RMM), que catalogava a maioria dos medicamentos que prescrevíamos. Ele era dividido em várias categorias que variavam desde efetivo a ineficaz. A categoria ineficaz compunha cerca de um terço dos remédios do livro. A maioria dos meus primeiros anos de atuação envolveu tirar as pessoas de medicamentos que estavam na categoria ineficaz. Se não funcionavam, por que deveriam comprá-los? Se não funcionavam bem, por que os pacientes deveriam se arriscar aos efeitos colaterais?

Desde aquela época, felizmente, a categoria ineficaz desapareceu do RMM, e a questão da eficácia da medicação mudou. Agora, como médicos e pacientes, somos chamados a olhar para medicação em termos de efeitos colaterais e benefícios. Para os pacientes, a questão importante deve ser se o custo e os efeitos adversos de uma droga são superados pelos seus benefícios. De forma simples, o remédio vale o dinheiro e os problemas que pode causar?

Nenhuma área da medicina está isenta desta questão. Ela é particularmente importante quando se trata de drogas psiquiátricas. Nenhum deles é sem efeitos colaterais ou despesas. No primeiro semestre, um artigo publicado na revista médica The Lancet trouxe essa questão à minha atenção.

Eu escrevi em Depressão e Transtorno Bipolar que a atual safra de medicamentos antidepressivos é menos eficaz do que esperávamos. Uma pesquisa publicada no JAMA em 2010 comparou os medicamentos que tínhamos na época e descobriu que, para 87% daqueles que os tomaram, eles não eram mais eficazes do que um placebo. Para os 12% restantes, os medicamentos mostraram-se eficazes na medida em que mudaram 2 pontos na escala de depressão de Hamilton, o que não é uma quantia clinicamente significativa.[1]

O artigo da Lancet foi trazido à minha atenção por vários amigos que queriam saber o que eu pensava sobre isso. A conclusão que chegou ao noticiário foi que “Todos os antidepressivos foram mais eficazes do que o placebo em adultos com transtorno depressivo maior”.[2] Muitos queriam que eu comentasse porque isso contradizia a pesquisa que citei em meu livro. Eu decidi esperar um pouco.

Desde então, outro artigo foi publicado por Nassir Ghaemi (MD, MPH) no Medscape, analisando os mesmos dados publicados no The Lancet. O autor chega a uma conclusão completamente diferente, examinando os dados em termos do “benefício clínico significativo” de tomar um antidepressivo.[3] O Dr. Ghaemi concluiu que todos os antidepressivos atuais não atingem um nível de efeito que resultaria em benefícios clinicamente significativos para o paciente. Um antidepressivo mais antigo, também considerado no estudo, de fato atingiu o limiar de eficácia.

Nas palavras do autor, “O ponto principal a se concluir… é que quase todos os antidepressivos têm benefícios pequenos, clinicamente insignificantes… apenas um agente excede o limite… do que pode ser considerado benefício clinicamente significativo em geral”.

Então, o que isso significa para aqueles que, no aconselhamento bíblico, acreditam que escolher tomar remédios é uma questão de liberdade cristã de Romanos 14? E o que isso significa para mim como médico cristão que faz o diagnóstico e escreve as prescrições? Para a maioria de nós, isso não muda nada.

Ainda assim, é preciso considerar que a escolha por tomar medicamentos deve se basear nos riscos, custos e benefícios. Muitos têm feito a pergunta errada. Tomar medicação não é uma questão de certo ou errado. A pergunta certa é: “Os efeitos colaterais e as despesas com esse medicamento serão superados pelo benefício?”

Ainda, precisamos estar comprometidos em resolver a diferença entre a tristeza normal e a desordenada. Se 90% dos pacientes rotulados com depressão estiverem simplesmente sofrendo com uma perda em suas vidas, podemos oferecer grande ajuda a partir da Escritura. Também podemos direcionar o grupo menor, mas real, que tem razões médicas para sua tristeza, para fazerem uso de assistência médica.[4]

Tanto no aconselhamento quanto na prática da medicina, ainda precisamos fazer um melhor trabalho no diagnóstico da depressão. Se pudéssemos descobrir e entender a patologia que conduz a tristeza desordenada, teríamos exames que validariam nossos diagnósticos. Então haveria menos pessoas diagnosticadas erradamente. Se tivéssemos certeza de que estamos tratando a doença da depressão e não uma tristeza normal por alguma perda, então talvez a taxa de eficácia dos medicamentos seria diferente. Se você “mirar” a medicação correta no problema certo, pode ser que funcione melhor.

A frase final do Dr. Ghaemi deve ser repetida: “Na questão maior dos antidepressivos, você tem duas opções: ou os antidepressivos não funcionam ou o TDM (Transtorno Depressivo Maior) não funciona. Faça a sua escolha”. Estas não são as palavras de um conselheiro bíblico. No entanto, eu concordo com ele. A medicação não funciona tão bem quanto esperávamos e o diagnóstico de depressão está em estado de confusão.

Nós que praticamos o aconselhamento bíblico devemos ter muita cautela no que diz respeito ao incentivo aos aconselhados para buscarem medicação. A pesquisa médica não é tão certa quanto o artigo da Lancet fez parecer. O problema é mais complexo do que a genérica declaração: “os medicamentos funcionam”.

Ao mesmo tempo, devemos nos ater à compreensão de liberdade cristã de Romanos 14 quando os aconselhados decidem tomar medicação para a depressão.

Perguntas para reflexão

Quando você recebe uma receita do seu médico, pergunta quais são os efeitos colaterais, os custos e os benefícios? Você encoraja seu aconselhado a fazer o mesmo?

Como conselheiro bíblico, você ouve bem o suficiente para distinguir entre a tristeza normal por alguma perda e a tristeza desordenada da depressão?

Quando você aconselha alguém com tristeza, você os envia ao médico para um exame completo, para ter certeza de que não há causas médicas subjacentes para a tristeza?

 

[1] Charles Hodges, Depressão e Transtorno Bipolar (Editora Peregrino, 2015), Capítulo 2.

[2] A. Cipriani, et.al. “Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta-analysis,” The Lancet (2018): 391, 1357-1366.

[3] Nassir Ghaemi, “Antidepressants Work for Major Depression! Not so Fast,” Medscape (2018) https://www.medscape.com/viewarticle/897878.

[4] Charles Hodges, Depressão e Transtorno Bipolar, Capítulo 5.

 

[Este post, de autoria de Charles Hodges*, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Lucas Sabatier e republicado mediante autorização.]

*Charles Hodges (M.D.) é medico atuante em Indiana, EUA. Ele é diretor-executivo do Vision of Hope, um ministério da igreja Faith, em Lafayette, Indiana.

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC e doutorando (Ph.D.) em aconselhamento bíblico no Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). Obteve seu M.Div. no Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA) e Th.M. no Southern Baptist Theological Seminary. É também advogado formado na PUC–SP. Lucas é casado com a Isabella desde 2011 e é pai da Ana Luisa e da Sophie.

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Este artigo tem 1 comentário

  1. Ricardo Capelari Responder

    A experiência que tenho em Aconselhamento Bíblico, mostra que os efeitos da medicação mais atrapalham do que ajudam. Não tenho observado nos inúmeros casos que acompanhei e acompanho, uma melhora significativa na qualidade de vida emocional das pessoas com aporte medicamentoso, porém, não aconselho para que parem de tomar, mas, mostro segundo a Palavra de Deus, que uma vida espiritual robusta alicerçada nas Sagradas Escrituras, são para a alma o melhor remédio.

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