Nunca Ore por Paciência

Uma das minhas piadas de “toc-toc” preferidas é a seguinte:

Palhaço: “Toc, toc.”

João: “Quem está aí?”

Palhaço: “Vaca impaciente.”

João: “Que vaca impa…” (interrompendo)

Palhaço: (interrompendo) “Mooooooo…”

Eu espero que essa piada boba tenha feito você rir, embora essa não tenha sido minha intenção. O ponto básico dessa piada é que a vaca impaciente não permite que João termine a frase esperada “Que vaca impaciente?”, pois a vaca é muito impaciente. Essa é a essência da impaciência: ela não ama, é grosseira e focada em si mesma.

Você pode ter dito (ou ouvido alguém dizer): “Cometi um erro ao orar por paciência hoje pela manhã; fiquei duas horas parado no trânsito. Aprendi uma lição muito valiosa hoje: nunca ore por paciência!” Essa é normalmente a forma que pensamos sobre paciência, mas o que a Bíblia nos diz sobre paciência e impaciência?

Impaciência e sua relação com o amor

No “capítulo do amor”, 1 Coríntios 13.4 diz: “O amor é paciente, é bondoso…” Eu parei aí porque foi da vontade de Deus que a primeira palavra a descrever o amor ágape fosse ‘paciência’. Amor ágape é a forma como Deus nos ama: incondicionalmente. Não é baseado na forma como o amamos, mas em como ele escolheu nos amar apesar de como o amamos (ou falhamos em amá-lo). Se você já é cristão há algum tempo, você entende quão paciente Deus é com você e com sua luta contra o pecado. Amor ágape é primariamente caracterizado por paciência e, se devemos amar como Deus ama, precisamos aprender a ser pacientes.

Certa vez, um aconselhado me disse que ele era “a pessoa mais impaciente do planeta”. Eu respondi com uma simples frase: “Abra em 1 Coríntios 13:4 e vamos ler esse verso juntos”. Eu pedi para ele ler o verso várias vezes até que ele entendeu e me disse, “Wow, eu não estou amando quando sou impaciente”. Eu sorri porque Deus abriu os olhos dele para ver a verdade sobre o caráter de Deus e sobre o seu próprio caráter naquele momento.

Precisamos entender que aqueles momentos de impaciência na loja de doces, no engarrafamento ou em casa com nossa família revelam um coração egoísta e sem amor. Mesmo como cristãos, podemos ceder a nossa carne e nos colocar acima de Deus e dos outros. Quando isso acontece, estamos pecando; precisamos confessar nosso pecado imediatamente e passar a substituir esses pensamentos, palavras e ações por paciência e amor, para a glória de Cristo, de forma a refletir o amor dele por nós.

Aplicações para o Aconselhamento Bíblico

Um dos meus versos preferidos sobre aconselhamento bíblico é 1 Tessalonicenses 5.14: “Exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos” (ênfase adicionada).

Como conselheiros bíblicos, você e eu devemos tratar os insubmissos de forma diferente da que tratamos os desanimados e fracos, porque cada um deles precisa de algo diferente do Senhor. Contudo, precisamos ser pacientes com todos, porque a paciência é um elemento que todo aconselhado precisa aprender—tanto para o seu próprio processo de transformação durante o aconselhamento, como algo a ser recebido por parte de seu Conselheiro. Paciência reflete o amor de Deus.

Como ensinamos paciência para os nossos aconselhados? É uma questão difícil, porque a paciência é mais facilmente aprendida na prática do que na sala de aula. De forma similar ao que Jesus ensinou para os seus doze discípulos de forma prática, pode ser necessário que conselheiros bíblicos ensinem sobre paciência naquele exato momento (durante a sessão). Quando aconselhamos pessoas com vícios, os encontros as vezes são diários. No mínimo, fazemos contato com esses aconselhados diariamente para que eles nos prestem contas. Essas ligações, quase sempre, nos dão oportunidade para ensiná-los sobre paciência e amor. Devido a forma como eles aprenderam a pensar, pessoas viciadas tendem a ser centradas em si mesmos e falhas no amar; porém, o aconselhamento bíblico sólido irá confrontá-los em amor com a verdade, com o propósito de santificá-los. Todo aconselhado confrontado em amor terá uma escolha a fazer: aceitar o conselho e se santificar, ou rejeitar o conselho.

Há muitos textos bíblicos que tratam sobre paciência, como Romanos 12:12: “Regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes”. Instruir nossos aconselhados a serem pacientes em meio a tribulação é uma afirmação de fé da parte deles e responderá à pergunta: Você está realmente confiando em Cristo ou está somente falando que confia nele? Paciência não é vista somente como uma demonstração de amor a Deus e ao próximo, mas também é uma afirmação poderosa sobre a nossa confiança em Deus como bom e soberano. A teologia do aconselhado será vivida nos momentos simples da vida, sempre que uma chance de ser paciente ou impaciente se apresentar.

Se você não se encontra diariamente com seu aconselhado, deixe que ele fale sobre os momentos de paciência vitoriosa ou de derrota para a impaciência, para que você possa aplicar a Palavra que irá “discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hebreus 4:12) em cada sessão.

Para conselheiros

Para o conselheiro bíblico, como ministro do evangelho, chamado a proclamar os sábios conselhos de Deus aos outros, 2 Timóteo 2.24–26 é claro:

“Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade.”

Conselheiros devem ser “pacientes”, o que significa que o aconselhado pode não gostar de ouvir a Palavra de Deus sendo ensinada e se rebelar. Mesmo assim, o conselheiro deve aprender a “disciplinar com mansidão os que se opõem” para que os bons propósitos de Deus sejam alcançados.

Nosso objetivo não é que Deus gere arrependimento nos nossos aconselhados? Paciência e mansidão durante a correção são ferramentas que Deus pode usar para dar vida a uma alma morta. É uma honra ser parte desse processo, mas você provavelmente nunca verá isso a menos que seja paciente como conselheiro, discipulador, pastor, professor ou amigo cristão. Paciência será melhor ensinada quando você a mostra ao seu aconselhado com toda humildade e graça.

Poderíamos falar muito mais sobre paciência, mas não nesse breve texto. Então, eu o encorajo a estudar sobre o tema na Palavra de Deus e encontrar tesouros, como o de Eclesiastes 7.8: “Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio; melhor é o paciente do que o arrogante”.

Conclusão

Paciência é um elemento chave no processo de aconselhamento bíblico, em oportunidades de discipulado e na caminhada cristã em geral: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3.9). Podemos ser gratos porque nosso Pai foi e continua a ser paciente conosco. Como resultado dessa bondade, podemos mostrar paciência aos outros como uma forma tangível de dizer, “Deus ama você”.

[Este post, de autoria de Mark Shaw, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Gustavo Santos e republicado mediante autorização.]

Escrito por Gustavo Santos

Gustavo Santos é engenheiro, e mestrando em Divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette, IN, EUA). Atualmente, serve como estagiário na Igreja Batista Maranata em São José dos Campos - SP.

Ver todos os posts do autor →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *