O Lado Cego do Sofrimento

Cores para daltônicos

Pessoas com daltonismo veem o mundo em tons silenciados, incapazes de ver as variações de cores que outras pessoas veem. Uma descoberta que incorpora novas tecnologias levou ao desenvolvimento de óculos que tornam possível a daltônicos verem cores de forma vívida.

Videoclipes de pessoas daltônicas usando esses óculos pela primeira vez foram postados online, circulando e se multiplicando de uma forma que somente mídias sociais permitem. Invariavelmente, ver as cores pela primeira vez ao usar esses óculos maravilham o usuário. De repente, tudo volta ao normal na vida da pessoa, porém de uma forma completamente nova. Objetos sempre foram reais, mas de repente eles se tornaram vivos, com um espectro de cores que não foram percebidos antes.

Não é algo tão diferente do que acontece em nossa vida espiritual. Antes de Cristo, estávamos espiritualmente cegos. Percebíamos a vida somente até um certo grau, mas sutilezas espirituais pareciam turvas e, por causa disso, nossas vidas espirituais não tinham clareza e propósito.

Até que—boom!—começamos a acreditar, e Cristo nos capacitou a enxergar a vida de uma nova forma. Vemos com novos olhos e um novo entendimento que redefine tudo o que conhecíamos nesse mundo. Isso explica, em parte, a empolgação que novos convertidos têm a respeito de sua nova fé—empolgação por finalmente compreenderem algo que antes era velado. Porém, usar de forma precisa as nossas lentes espirituais é uma lição para a vida inteira, e a dor e as dificuldades que enfrentamos na vida fazem parte dessa educação.

O sofrimento tem um propósito

Na vida cristã, o sofrimento tem um propósito para o nosso bem e para a glória de Deus (Romanos 8.28). O ministro da Palavra de Deus deve abraçar essa verdade, pois ela será o combustível para o seu ministério. Paulo entendeu que isso era verdade em seu próprio ministério. O livro de 2 Coríntios é uma carta que trata do ministério de Paulo a luz do assalto espiritual que a igreja de Corinto sofreu da parte de falsos mestres. Antes dessa carta, Paulo havia sido desacreditado pelos falsos mestres, que diziam que verdadeiros servos de Deus não poderiam sofrer como Paulo sofria. Em resposta, Paulo apela ao povo de Corinto, através de sua carta, para que eles entendam o propósito espiritual do sofrimento na vida dos cristãos, para que eles aceitem a posição de Paulo como apóstolo, e para que eles acreditem no evangelho de Cristo como o servo sofredor, que morreu na cruz pelos pecados do mundo. De fato, Paulo cita os seus próprios sofrimentos como credenciais que o capacitaram a ministrar e a confortar o povo de Corinto, e, com o tempo, a nós também.

Considere tudo o que Paulo passou: “Em trabalhos, muito mais; muito mais em prisões; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez. Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas” (2 Coríntios 11.23–28).

Tudo isso não seria nada mais do que uma lista de misérias, suficiente para fazer qualquer um questionar a sanidade de Paulo ao permanecer em seu ministério, se não fosse a aplicação dos óculos espirituais de Paulo, que oferece sentido e propósito ao seu sofrimento.

Olhando através de lentes espirituais, Paulo entendeu que o seu sofrimento foi designado para ensinar “que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos” (2 Coríntios 1:9). Precisamos crescer em nossa dependência de Deus. Normalmente, presumimos que nossos sucessos são um resultado direto de nossos esforços. O sofrimento nos força a questionar o grau de controle que realmente temos e nos encoraja a nos aproximarmos do Deus de conforto para compreendermos nossa situação.

Na verdade, o mesmo poder que ressuscitou Cristo dos mortos está disponível hoje, não somente para prover a ressurreição futura e eterna dos que creem, mas para trabalhar agora na vida de cada cristão, moldando em nós o caráter de Cristo. Isto é crucial quando se trata de compreender o sofrimento, pois, como Tiago escreve, as provações que passamos são oportunidades para manifestarmos a nossa fé (Tiago 1:2–4).

Nosso conforto, portanto, vem, em parte, de aprender e entender que há um propósito em cada provação, mesmo que não possamos vê-lo imediatamente. Talvez nunca entendamos as circunstâncias específicas que levaram Deus a preparar, de forma soberana, uma determinada provação. Por exemplo, não há indícios de que Jó tenha sido informado por que ele sofreu tudo o que sofreu. No entanto, podemos saber que Deus está preparando cada provação para que cresçamos na semelhança de Cristo. O sofrimento sancionado por Deus não é um tipo de bullying cósmico; ao contrário, o amor de Deus pelos seus filhos faz com que ele deseje que demos a ele maior glória através de uma maior dependência dele.

O sofrimento faz de você um melhor conselheiro

Ajudar pessoas que estão sofrendo é um dos maiores privilégios e desafios do aconselhamento. Choramos com os que choram, conduzindo-os ao Deus que conforta e a ver o sofrimento deles através de lentes que talvez ainda não tenham percebido que possuem.

O sofrimento é algo difícil de entender e é visto de forma diferente por aqueles que confiam em Cristo, e o conselheiro deve ter grande cuidado para introduzir esperança em tempos de dificuldades. Nós conduzimos outros ao Deus que conforta e os ajudamos a enxergar o sofrimento deles de uma forma que antes não lhes era clara. Temos o privilégio de aconselhar outros em suas lutas e de conduzi-los ao “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de TODA consolação! É ele que nos conforta em TODA a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em QUALQUER angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus” (2 Coríntios 1.3–4, ênfase do autor). Confortar é encorajar, exortar e caminhar lado a lado, permitindo que o Senhor use o conforto que você recebeu dele para confortar aqueles que precisam. Como Paulo escreveu, foi o seu próprio sofrimento que o levou a entender o conforto de Deus, para que ele pudesse oferecer esse conforto aos que necessitam.

Os sofrimentos passados e presentes de Paulo não serviram somente para levá-lo para mais perto de Deus, mas deram a ele a esperança e sabedoria necessárias para que ele também pudesse oferecer aos outros. Podemos estender a sabedoria adquirida em meio aos nossos sofrimentos aos outros. Isto acontece quando demonstramos simpatia aos outros em suas provações e os encorajamos através daquilo que aprendemos, e como crescemos em nosso relacionamento com Cristo como resultado das provações que Deus coloca em nossas vidas.

Coloque as lentes espirituais

A realidade é que vivemos em um mundo quebrado e pecaminoso, e estamos em diversos níveis de sofrimento. Vivemos entre provações que nos despertam para a nossa necessidade do conforto de Deus. Ele oferece conforto livre e abundantemente. No entanto, é especificamente no contexto do sofrimento que Paulo reconheceu sua maior habilidade de servir aos outros em Cristo. Deus planeja provações em nossas vidas para nos mostrar o quanto precisamos dele e para cultivar uma dependência divina. Quando dependemos dele, ele nos abençoa ricamente com o seu conforto; na verdade, ele nos abençoa por reconhecermos nossa incapacidade de lidar com nossos próprios problemas.

Portanto, assegure-se de usar os seus óculos espirituais. Assegure-se de ver o seu próprio sofrimento e o dos outros através das lentes espirituais, reconhecendo nossa necessidade de um Deus soberano, sábio e amoroso. Não continue olhando para a sua situação com os tons silenciados da imaturidade espiritual, mas esforce-se para alcançar uma perspectiva que lhe permita ver sua necessidade de Deus de forma completa.

[Este post, de autoria de Adrian Martinez, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Gustavo Santos e republicado mediante autorização.]

Escrito por Gustavo Santos

Gustavo Santos é engenheiro, e mestrando em Divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette, IN, EUA). Atualmente, serve como estagiário na Igreja Batista Maranata em São José dos Campos - SP.

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