Pregação bíblica e Aconselhamento Bíblico: O que os faz “bíblicos”?

Meu amigo David Murray escreveu um texto para o blog The Gospel Coalition em 2012, que foi republicado há algumas semanas: “Quão bíblico é o aconselhamento bíblico?” Em seu texto, David traça a seguinte analogia sobre o que faz a pregação bíblica “bíblica”.

Tomemos, por exemplo, a “pregação bíblica”. “Bíblico” aqui não significa que usamos apenas a Bíblia em sermões. A pregação bíblica expõe a Bíblia, mas também empresta de fontes não-bíblicas — algumas escritas por incrédulos — como guias e comentários sintáticos, gramaticais, lexicais e textuais. Muitas vezes, incorporamos pesquisas históricas, geográficas, sociológicas e culturais. Nós normalmente usamos resultados científicos atuais e a mídia moderna para ensinar, explicar ou ilustrar um ponto. Mesmo a forma e o estilo de comunicação da maioria dos sermões modernos baseiam-se amplamente em métodos de discurso, modernos e antigos, derivados da filosofia e da política. No entanto, embora algum conteúdo e a forma da pregação bíblica seja extraído de fora da Bíblia, acreditamos que Deus providenciou uma Bíblia que é capaz de filtrar o falso e admitir a verdade de Deus, que ele colocou graciosamente o mundo.

A respeito dessa analogia, David escreve:

Para alguns membros da nossa família, “bíblico” significa “somente Bíblia”. Para eles, o aconselhamento bíblico poderia ser mais precisamente renomeado “conselhos da Bíblia”. Em princípio, isso significa que eles usam apenas a Bíblia no aconselhamento das pessoas; nada mais é útil, e qualquer outra coisa compromete.

O Ministério da Palavra

No espírito do diálogo amigável, gostaria de dar sequência à analogia do David. Não acredito que sua analogia aborde as preocupações dos conselheiros bíblicos. Antes de fazer a analogia, considere uma comparação: tanto o aconselhamento bíblico quanto a pregação bíblica são ministérios da Palavra.

  • Pregação bíblica: O ministério de púlpito da Palavra, o ministério público da Palavra.
  • Aconselhamento bíblico: O ministério privado da Palavra, o ministério pessoal da Palavra.

Quando o pastor prega no púlpito, ele foca no relacionamento da verdade de Deus com a vida. Quando o pastor aconselha de forma interativa e conversacional em seu escritório pastoral, ele foca no relacionamento da verdade de Deus com a vida. A questão que eu quero que consideremos é essa: “Será que cosmovisões extra-bíblicas devem alguma participação na pregação bíblica ou aconselhamento bíblico?”

Seria a pregação “bíblica” se o seu conteúdo, fundamento e cosmovisão forem 95% seculares?

Esta é a primeira analogia que conselheiros bíblicos usariam. Alguns conselheiros dizem que estão fazendo aconselhamento cristão quando abrem e fecham seus encontros em oração, ou talvez mencionem um versículo durante uma sessão de 60 minutos. Para usar a analogia da pregação, podemos considerar uma exposição “bíblica” se o seu conteúdo, fundamento e comunicação forem compostos em 95% de uma cosmovisão secular, mas com uma oração de abertura e fechamento, e um versículo mencionado, mas nunca desenvolvido? Se 95% da mensagem contém os pontos de vista do filósofo ateísta do século XX, Bertrand Russell, Gandhi ou teólogos liberais, seria a pregação “bíblica”? Esta é a preocupação dos conselheiros bíblicos: autoridade básica para a vida cristã está fundamentada em teologia bíblica? Ou a base para a vida cristã está sendo construída sobre as teorias da filosofia secular, psicologia secular e sociologia secular? A palavra-chave aqui é “teorias” — cosmovisão, a fonte para a compreensão do homem, problemas e soluções. Agora, alguns podem dizer: “Você está exagerando, Bob. Nenhum conselheiro cristão, seria 95% secular”. Recentemente, li uma importante obra de um conselheiro cristão integracionista. O índice de fontes era composto de diversas páginas — a maioria das fontes era secular. O index de textos bíblicos continha 3 versos — cobrindo mais de 750 páginas de texto. Eu amo meus amigos do aconselhamento integracionista cristão, mas eu os incentivaria humildemente a considerar se há uma falta de riqueza teológica e robustez bíblica.

Seria a pregação “bíblica” se a autoridade e a sabedoria do mundo forem colocadas acima da autoridade e da sabedoria da Palavra?

Vamos presumir que a primeira analogia é um exagero. Aqui está uma segunda pergunta: “Seria a pregação ‘bíblica’ se uma cosmovisão secular mantiver influência sobre a cosmovisão bíblica?” Ambas são citadas em um sermão (a sabedoria do mundo e a sabedoria da Palavra), mas quando há uma discrepância, a sabedoria do mundo supera a sabedoria da Palavra. Quantos de nós participaríamos de uma igreja em que, durante uma série inteira de 12 semanas, se colocasse a autoridade do mundo sobre a autoridade da Palavra? E, no entanto, alguns modelos de aconselhamento integracionista fazem isso. É com isso que os conselheiros bíblicos estão preocupados. A analogia não é sobre sintaxe, mas sobre cosmovisão e a fonte de sabedoria autoritativa para a vida.

Seria a pregação “bíblica” se a autoridade e a sabedoria do mundo forem vistas como iguais à autoridade e à sabedoria da Palavra?

Mais uma vez, David e outros podem dizer: “Mas o conselheiro cristão integracionista que for bem treinado não vai colocar o mundo acima da Palavra”. Então, vamos fazer outra pergunta. “Seria a pregação “bíblica” se a autoridade e a sabedoria do mundo forem vistas como iguais à autoridade e à sabedoria da Palavra?” Ambos são citados em igualmente. Ambos são vistos como tendo áreas ou esferas de autoridade. A cosmovisão secular de Bertrand Russell é considerada com credibilidade em matéria de fé e prática tanto quanto Pedro, Paulo, Tiago, João ou Jesus. Quantos de nós ouviríamos sermões por 12 semanas, quando a sabedoria do mundo para a vida é tida em igualdade com a sabedoria da Palavra? Quantos de nós deveria participar de 12 sessões de aconselhamento onde o conselheiro apresenta sabedoria mundana para viver em pé de igualdade com a sabedoria prática da Palavra?

Seria a pregação “bíblica” se a autoridade e a sabedoria da Palavra fossem vistas como superiores à autoridade e à sabedoria do mundo, mas ainda assim a sabedoria do mundo para a vida fosse um importante fundamento e componente da pregação?

Mais uma vez, David e outros podem dizer: “Espere, Bob. O conselheiro cristão integracionista usa a Palavra de Deus como a lente pela qual qualquer coisa do mundo é avaliada.” Eu responderia: “Lembre-se, não estamos falando de sintaxe. Estamos falando de cosmovisão. Estamos tratando se um mundo caído tem sabedoria de entendimento para explicar as pessoas — humanidade, antropologia, quem somos e como fomos projetados em nossas almas em relação a Deus”. Eu continuaria: “Estamos falando se um mundo caído tem sabedoria de entendimento para explicar o pecado — a queda, hamartiologia, o que deu errado, como nossas almas estão em rebelião diante de Deus e não têm shalom.” Continuaria: “Estamos falando se um mundo caído tem sabedoria de entendimento para apresentar soluções — salvação, reconciliação, santificação, recuperação do sofrimento, vitória sobre o pecado, quem é Deus, quem é Cristo, o que é o evangelho e como ele impacta a vida cotidiana”. Então, sim, um pregador poderia citar algum filme — mas ilustrativamente, apenas para ajudar a descrever um princípio bíblico. Mas se esse pregador, mesmo que ele fale sobre a autoridade da Palavra sobre mundo, construir a tese de seu sermão a partir do filme, ou construir os principais pontos do seu sermão da compreensão teológica de um teólogo liberal, ou construir componentes de seu sermão a partir da cosmovisão de um filósofo secular — por 12 semanas seguidas — quantos de nós continuaria atendendo a essa igreja? Isso nos leva ao cerne da questão. Temos confiança de que a Palavra de Deus tem sabedoria sólida, rica, relevante, relacional e profunda sobre as questões da alma que enfrentamos todos os dias? Ou, acreditamos que o mundo caído, em rebelião contra Deus, tem uma sabedoria robusta, rica, relevante, relacional e profunda sobre as questões da alma que enfrentamos todos os dias?

Conselheiros bíblicos e a cosmovisão bíblica

Conselheiros bíblicos se preocupam em ter uma cosmovisão bíblica — sobre a construção da nossa compreensão das pessoas, dos problemas e das soluções a partir de um fundamento rico, robusto, Cristocêntrico, centrado no evangelho e que glorifique a Deus. Somos “conselheiros da Bíblia somente” quando fazemos uso da cosmovisão bíblica sobre pessoas, problemas e soluções — vivendo inteiramente, saudável ​​e santamente em um mundo caído e quebrado. Os conselheiros bíblicos não são “conselheiros da Bíblia apenas” quando se trata de compreender a ciência médica, pesquisas neurológicas ou pesquisas psicológicas descritivas. (Para uma apresentação robusta da visão do aconselhamento bíblico, veja o livro Scripture and Counseling (“As Escrituras e o aconselhamento”), da Biblical Counseling Coalition, e, para uma declaração resumida, veja a declaração confessional da Biblical Counseling Coalition). Alguns exemplos podem ajudar — primeiro, a neurociência. O Dr. Charles Hodges, médico e conselheiro bíblico, escreveu o livro Depressão e Transtorno Bipolar, no qual ele cita muitos artigos de neurociência. Todos foram colocados sob uma lente bíblica. A neurociência, quando “permanece na sua pista” de fazer pesquisas neurológicas, não é uma “cosmovisão”. Há uma cosmovisão por trás dela (muitas vezes evolutiva) que sempre deve ser considerada. Mas nem o Dr. Hodges nem eu teríamos problema com uma descoberta neurológica legítima sendo compartilhada com um aconselhado. Essa situação se aproxima da analogia de sintaxe que David Murray usou. E quanto à pesquisa psicológica? Novamente, perspectivas de uma cosmovisão influenciam no modo como se faz pesquisa. No entanto, os conselheiros bíblicos expressaram abertura à psicologia descritiva — uma descrição do que acontece, não um diagnóstico do porquê e não uma prescrição do que fazer. Quando a psicologia descritiva “permanece na sua pista”, eu poderia potencialmente usar uma descoberta, debaixo da autoridade da Palavra. Por exemplo, no livro God’s Healing for Life’s Losses (“A cura de Deus para as perdas da vida”), introduzo brevemente um modelo descritivo do processo de sofrimento: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. É uma maneira de descrever como as pessoas respondem estereotipicamente à perda em um mundo caído. Não é prescritivo. No resto do livro, eu exploro o que a sabedoria da Bíblia nos comunica sobre como passar pelo luto de modo centrado em Cristo — aconselhamento prescritivo, teórico e teológico. A descrição vem da pesquisa. O diagnóstico e a prescrição vêm da Palavra.

Conclusão

Conselheiros bíblicos não querem integrar a cosmovisão bíblica com uma cosmovisão secular. Tampouco um pregador bíblico. Essa é a analogia central. Essa é a mensagem central de Colossenses 2.8:

Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo”.

Os conselheiros bíblicos não querem integrar a teoria do aconselhamento bíblico com a teoria do aconselhamento secular — ideias sobre pessoas, problemas e soluções — porque essas são questões fundamentalmente teológicas — sim, questões bíblicas. Na construção teórica (construção teológica), sim, conselheiros bíblicos são “somente Bíblia”, e sem desculpas. Assim como os pregadores que constroem suas mensagens sobre a exegese do texto das Escrituras e sobre uma cosmovisão bíblica inteligível são pregadores de “somente Bíblia”, e sem desculpas.

[Este post, de autoria de Bob Kellemen (Th.M., Ph.D), foi originalmente publicado no blog do RPM Ministries e republicado no site da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Lucas Sabatier e republicado mediante autorização.]

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC (Association of Certified Biblical Counselors) e mestrando em teologia prática pelo Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). É também advogado, formado em Direito pela PUC de São Paulo, e mestre em divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA). É casado com a Isabella, e pai da Ana Luisa e da Sophie.

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