Quando a Exortação Leva à Frustração

Recentemente, em uma aula, cunhei uma frase que cristaliza uma dinâmica muito importante nos ministérios de aconselhamento bíblico e de ensino/pregação: Exortação, sem a instrução que leva à implementação, produz frustração.

Minha frustração pessoal

Nos últimos trinta anos ou mais, tive o privilégio de supervisionar os candidatos a membros certificados da ACBC (antigamente, NANC) e da IABC. Nos meus primeiros dias de ministério como Deão de um Instituto Bíblico, fiquei frustrado. Procurando por um conjunto de habilidades e ferramentas que me capacitassem a ajudar os alunos a mudar — de simples recebedores de minhas exortações a implementadores da verdade contida nas exortações —, busquei assistência na psicologia.

Contudo, depois de passar pela entrevista de entrada em uma então respeitada escola cristã de psicologia, disse à minha esposa: “Eu não quero ir para lá.” Quando ela perguntou por que, eu disse: “Eles são homens cristãos calorosos que têm o mesmo desejo de ajudar as pessoas que eu tenho. Mas a antropologia deles não é bíblica. Deve haver uma metodologia bíblica que me ajude a ajudar pessoas a implementar a verdade”.

Antes desse momento, havíamos sido expostos à teologia de Keswick. A exortação muitas vezes simplista que diz “basta sair do caminho e deixar que Cristo viva a sua vida através de você” foi quase enlouquecedora. Se esta é a maneira de viver a vida cristã, então por que a Bíblia é repleta de exortações dirigidas a nós? Apesar da minha frase não me ocorrido naqueles dias, ela descreve perfeitamente minha experiência.

Descobrindo a Luz

Então, em 1971, fui apresentado ao Dr. Jay Adams e me associei à CCEF. Apesar do fato do Dr. Adams não ter todos os problemas solucionados (e ele foi o primeiro a nos dizer que não havia solucionado tudo), ele certamente havia se dado conta do imperativo da implementação — como colocar palavras de exortação em prática na vida do aconselhado.

A maioria dos leitores deste blog está familiarizada com os três níveis de problemas pessoais propostos por Adams. O nível do pré-condicionamento aponta para o estado do coração. Segundo a Escritura, da abundância do coração o homem fala, age e pensa (Lucas 6.43–45). O coração é naturalmente inclinado a si mesmo; assim, há uma tendência natural para interpretar todo o resto em termos de interesse próprio. Desta forma, torna-se necessário que o conselheiro vá além do problema apresentado (“estou deprimido”) e do problema de performance (dormir muitas horas para evitar a vida) e lide com o problema do pré-condicionamento (amargura, falta de perdão, ou questões como expectativas impostas pelos pais ou comunidade).

Com esses problemas do coração diante dele, o conselheiro pode começar a levar o aconselhado da exortação para acabar com a amargura (ou reconhecer e avaliar a fonte das expectativas no ambiente familiar ou religioso) para a implementação da exortação.

O nascimento da frase

O surgimento da minha frase foi resultado de ter supervisionado vários conselheiros que estavam fazendo um excelente trabalho de identificar o problema de performance que acompanha o problema apresentado, mas falhando na exortação apropriada. Por exemplo, uma mulher que sofria de ansiedade severa foi designada para memorizar Filipenses 4.8. O resultado foi uma aconselhada, em necessidade desesperada, indo para casa com uma exortação que só aumentaria sua ansiedade, pois não havia recebido qualquer instrução que a ajudasse na implementação. No mínimo, a conselheira deveria ter instruído a aconselhada explicando Filipenses 4.8 em seu contexto de 4.4–9. Melhor ainda, ela deveria ter ensinado os princípios de implementação incorporados no contexto.

Outro exemplo de exortação inadequada é simplesmente dizer a um aconselhado que seu problema do coração é idolatria. Embora o conceito de ídolos do coração seja útil, muitas vezes ele se tornou um rótulo esotérico que faz com que tanto o conselheiro quanto o aconselhado se sintam bem, mas que, como muitos rótulos seculares, comunica muito pouco ao aconselhado.

Da frustração à implementação

Quando aconselhamos, devemos ter certeza de que vamos além do problema de performance, para que não validemos a acusação de que somos simplesmente comportamentalistas cristãos e nos tornemos parte do problema, contribuindo para a frustração do aconselhado. As pessoas vêm até nós porque em algum nível elas acreditam que a Bíblia tem respostas. Nós nos representamos como aqueles que conhecem a Bíblia e sabem como usá-la. Quando damos exortações, mas não fornecemos instrução que leve à implementação da verdade exortada, deixamos os aconselhados frustrados.

A realidade é que, muitas vezes, a exortação da Escritura tem a instrução para implementação contida em seu contexto. Simplesmente citar a exortar “deixe de lado a falsidade” (Efésios 4.25) é frustrante. No entanto, um estudo cuidadoso do contexto nos instrui sobre como exortar e como implementar. Devemos ter certeza de que estamos oferecendo a instrução necessária para que nossos aconselhados implementem nossas exortações e que os novos conselheiros bíblicos que estamos treinando entendam essa importante verdade.

Perguntas para Reflexão

Como você definiria exortação, implementação e frustração na visão do aconselhamento bíblico? Você se identificou com o autor? Se sim, qual é o seu plano para evitar frustrar seus aconselhados?

 

[Este post, de autoria de Howard Eyrich*, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Lucas Sabatier e republicado mediante autorização.]

*Howard Eyrich (Th.M., D.Min.) se aposentou recentemente como pastor do ministério de aconselhamento na Igreja Presbiteriana Briarwood, em Birmingham, Alabama. Ele continua a liderar os programas de mestrado e doutorado em ministério no Seminário Teológico de Birmingham.

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC e doutorando (Ph.D.) em aconselhamento bíblico no Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). Obteve seu M.Div. no Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA) e Th.M. no Southern Baptist Theological Seminary. É também advogado formado na PUC–SP. Lucas é casado com a Isabella desde 2011 e é pai da Ana Luisa e da Sophie.

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Este artigo tem 1 comentário

  1. Eliana dos Santos Pires Responder

    À prática do aconselhamento traz esse desafios. Amargura é uma companheira persistente é preciso enfrentar, a psicologizacão, também. Não raro deparo com com essa cosmovisão freudiana por parte dos aconselhados é um grande interesse em transferir responsabilidade.

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