Três Objetivos Importantes para a Hora Silenciosa de um Conselheiro

Como qualquer pessoa que ministra a outros sabe, nossa capacidade de cuidar biblicamente de outras pessoas é resultado do trabalho do Senhor em nossos próprios corações. Nossa capacidade de ajudar outros que estão lutando com o pecado e de lidar com as preocupações de nossas próprias vidas está diretamente relacionada com a forma como permitimos que o Senhor e a sua Palavra confrontem nossos pecados e nos ajudem a nos apoiar nele em meio às circunstâncias da vida.

Deixar o Senhor trabalhar em nós é algo que, como ministros da Palavra, devemos cultivar ativamente como parte fundamental de nossas vidas. Nossa própria vida devocional, ou hora silenciosa, como é frequentemente chamada, é um lugar ideal para cultivar corações adequadamente preparados para o ministério. Neste artigo, eu quero propor três objetivos que cada conselheiro e pastor devem buscar em suas próprias vidas, e que podem ser integrados em sua vida devocional.

1. Cresça em humilde admiração

A.W. Tozer disse: “O que vem primeiro em nossas mentes quando pensamos em Deus é o mais importante sobre nós” [“O Conhecimento do Santo”].  Deus não é uma experiência que temos, mas uma pessoa com a qual nos relacionamos. Como pessoa, Deus possui características ou atributos que definem quem ele é; e ele é muito detalhista acerca de como pensamos sobre ele. É por isso que os dois primeiros mandamentos estão focados em como nos relacionamos com Ele. É também por isso que temos livros como Levítico na Palavra de Deus.

Quando mais verdadeiramente enxergamos a Deus, conforme ele se representa em sua Palavra, mais ricamente entenderemos seu caráter. Quanto mais rica for a nossa compreensão do caráter de Deus, mais precisamente poderemos nos relacionar com ele e ver a atividade de sua mão no orquestrar das circunstâncias em que nos encontramos, tanto individual quanto coletivamente.

A riqueza da nossa compreensão do Senhor deve resultar em admiração — admiração da paciência de Deus que permite que pecadores se arrependam; admiração da justiça de Deus sobre o pecado do homem; admiração da misericórdia de Deus que perdoa tão livremente; admiração da obra de Deus em nós e à nossa volta.

Humildade na admiração

Se relacionarmos a leitura da Bíblia com nossas próprias vidas, nos veremos como recipientes da riqueza do caráter de Deus. Nós somos aqueles a quem Deus demonstra sua paciência quando nos rebelamos. Nós somos aqueles a quem Deus perdoa misericordiosamente. Nós somos aqueles que merecem ser condenados por Deus. À medida que compreendemos o que lemos sobre o caráter de Deus, cresceremos com admiração por ele e também cresceremos em humildade.

Deus nos traz aqueles a quem ele quer que nós ministremos, e ele quer que nós os incitemos a mudar (Hebreus 10.24). Se queremos que nossos aconselhados mudem, precisamos ser modelos e transmitir essa humilde admiração como padrão para toda vida cristã. Assim, devemos cultivar essa humilde admiração, e a melhor maneira de fazermos isso é torna-la um dos objetivos de nossa vida devocional.

2. Crescer em santidade sincera

Todo conselheiro bíblico sabe que a santidade é o propósito principal de Deus para todos nós. Esta é a própria razão pela qual fomos predestinados (Romanos 8.29), e Paulo nos diz explicitamente que a santidade é a vontade de Deus para nós (1 Tessalonicenses 4.3). Como Paulo, oramos por aqueles que ministramos, para que vivam “de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado” (Colossenses 1.9-10).

Crescer em santidade significa crescer no temor do Senhor. Isso é essencial para crescer em nosso amor por ele e por seu caráter, e resulta em um ódio ao mal (Provérbios 8.13) e no desejo de agradá-lo. Certamente, entender e relacionar biblicamente o caráter de Deus com nossas próprias vidas resultará em amor e crescimento em santidade.

Devemos procurar desenvolver afeições piedosas em nossa vida devocional. Quando desejamos e amamos a pureza e a justiça de Deus, uma santidade sincera florescerá na medida que o Senhor conceder os desejos de nosso coração (Salmo 37.4). Sendo nós aqueles que tiveram afeições ajustadas pela autorrevelação de Deus nas Escrituras, estamos em melhor posição para avaliar os desejos dos corações daqueles a quem ministramos, chamando-os a amar primeiro Deus, mesmo que isso signifique sofrimento duradouro, dores e dificuldades.

3. Crescer em conhecimento vívido

Nossa compreensão da Palavra de Deus é muitas vezes a razão pela qual as pessoas vêm até nós. Elas precisam saber como Deus quer que elas resolvam seus conflitos ou como ele quer que elas respondam às circunstâncias em que se encontram. Precisam conhecer a vontade de Deus e o seu caráter. O conhecimento bíblico começa com a compreensão da autorrevelação de Deus, mas é confirmado quando respondemos com todo o coração, alma, mente e força, e experimentamos a vontade de Deus.

Quando lemos a Bíblia durante nosso tempo devocional, é importante que nos coloquemos no texto, meditando ricamente sobre ele, para que possamos entender os desejos daqueles descritos no texto, e, acima de tudo, para que possamos ver o que Deus quer e como ele responde em cada cena.

Em meio a tantos planos de leitura, a arte da meditação parece ter sido perdida hoje. Embora a compreensão de todo o escopo das Escrituras seja importante para um conselheiro, precisamos permanecer no texto, nos colocar na cena, nos ver entre os destinatários. À medida que meditamos sobre o texto e consideramos os pensamentos, motivos, desejos, compromissos e decisões daqueles que são apresentados na Palavra de Deus, nossa compreensão ganhará vida. Veremos que Deus interage no texto na medida que guia, recompensa, julga e castiga. Isso nos ajuda a sermos sensíveis às diferentes maneiras pelas quais o Senhor trabalha em nossas próprias vidas e nas vidas daqueles de quem ministramos. Então, aprenderemos a ver que as respostas de Deus não são simplistas, mas são ricas; e essa riqueza informará nossas respostas e conselhos a outros.

Conclusão

Conselheiros bíblicos não são apenas teólogos ou meros acadêmicos. Contudo, se a nossa vida devocional for meramente acadêmica, nossos conselhos serão deficientes. Em nosso tempo devocional individual, devemos perguntar o que aprendemos com o texto que pode nos levar a admirar mais a Deus, a santidade pessoal e a um conhecimento mais rico de como o Senhor age na vida das pessoas. Se não possuirmos riqueza teológica e afetiva, porque não conseguimos nos humilhar e ver como o Senhor se revela em sua Palavra, então, não conseguiremos chamar nossos aconselhados à plenitude a que o Senhor os chama.

[Este post, de autoria de Darryl Burling, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Lucas Sabatier e republicado mediante autorização.]

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC (Association of Certified Biblical Counselors) e mestrando em teologia prática pelo Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). É também advogado, formado em Direito pela PUC de São Paulo, e mestre em divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA). É casado com a Isabella, e pai da Ana Luisa e da Sophie.

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