Uma Abordagem Evangélica de Provérbios no Aconselhamento

Provérbios é um livro bem conhecido da Bíblia. Provérbios também é um livro que causa diferentes reações entre ministros cristãos. As reações variam entre amar ou ignorar o livro de Provérbios. Alguns pregadores tentam evitar pregar em Provérbios (ignorar). Por outro lado, conselheiros não veem a hora de usar Provérbios. O livro de Provérbios parece uma coleção de dicas práticas para a vida, o que o torna difícil de pregar, mas de fácil uso no aconselhamento. No entanto, parece que ambos podem estar errados. Pregadores expositivos geralmente evitam Provérbios devido a uma compreensão superficial de sua teologia ou à falta de criatividade/habilidade homilética. Conselheiros podem ir muito rápido a Provérbios, procurando por algo a dizer ao aconselhado, a fim de resolver seus problemas, mas ignorando o real poder para mudança. Será que tem como acertar no uso de Provérbios?

Não estou propondo um estudo profundo do livro de Provérbios, nem uma metodologia complexa sobre como usar Provérbios no ministério cristão. No entanto, estou sugerindo uma abordagem geral ao livro de Provérbios para incentivá-lo, conselheiro, sobre como usar os Provérbios de uma maneira bíblica. Trata-se de um simples processo de três passos para uma abordagem orientada para o evangelho para o livro de Provérbios. Espero que esta abordagem o incentive a aproveitar Provérbios ao máximo no seu aconselhamento.

1) Provérbios expõe o pecado da tolice

Provérbios descreve dois caminhos diferentes: sabedoria e tolice (Provérbios 1-9). À primeira vista, a sabedoria parece ser uma excelente habilidade para percorrer diferentes situações da vida. Em parte, esta é uma boa descrição da sabedoria. Mas isso não é tudo o que ela abrange. A sabedoria é dada em um contexto. A sabedoria é dada a Israel no contexto de um relacionamento, quebrado por causa do pecado e restaurado por causa da graça de Deus. É somente através de uma relação vertical com Deus (Provérbios 1.7) que alguém ganha sabedoria para viver em harmonia com Deus, com outros e com a criação. Portanto, a descrição prática da sabedoria em Provérbios é uma manifestação externa de uma condição interna. Ninguém é sábio sem a graça. Sabedoria e conhecimento são obra de Deus em nossas vidas (Provérbios 2.6, 7), e a sabedoria está ligada à obediência à lei (Deuteronômio 4.6). Assim, sem a graça, há apenas desobediência, caracterizada pela tolice.

À medida que Provérbios revela o caminho do tolo, conectamos essa tolice à desobediência da lei de Deus. Cada uma das características de um tolo mostra uma perspectiva diferente de desobediência. Nessa relação próxima entre tolice e pecado, você pode chamar o seu aconselhado para se arrepender. Não existe uma tolice neutra. Um padrão de tolice na vida de alguém também marca um padrão de pecado. Assim como a lei expõe o pecado, a sabedoria expõe o pecado da tolice.

Os conselheiros podem usar o livro de Provérbios para guiar seus aconselhados no caminho do verdadeiro arrependimento. A tolice prende muitos aconselhados em comportamentos constantes de imoralidade sexual, preguiça, discurso profano, gula e várias outras respostas pecaminosas e tolas à vida. Em uma abordagem orientada pelo Evangelho ao livro de Provérbios, você exporá o pecado em suas várias formas de tolice. Se você está familiarizado com a lei de Deus e seu propósito, você discernirá o significado prático de Provérbios (e literatura de sabedoria): uma exortação a um estilo de vida altruísta caracterizada por um amor por Deus e outros.

2) Provérbios aponta para Cristo

O livro dos Provérbios revela que a sabedoria não é uma “coisa”, mas uma pessoa. Salomão personifica a Sabedoria, apresentando-a como alguém que seu filho deve ouvir (Provérbios 1.20-33); alguém que é poderoso (Provérbios 8.1-36); e alguém com o qual seu filho deveria ter um relacionamento (Provérbios 9.1-6). Você quase pode ouvi-lo dizer no capítulo nove, “Filho, case-se com essa garota, a Sabedoria!”

As Escrituras nos apontam para Jesus como a Sabedoria de Deus (1 Coríntios 1.24; Colossenses 2.2, 3). A Escritura também indica que Jesus é o Filho que cresceu em sabedoria e graça (Lucas 2.52). Jesus é o Filho que abraça perfeitamente a mente de Deus e cumpre a sua justa sabedoria. Ler Provérbios é conhecer a mente de Cristo. Aconselhar usando Provérbios não é dar listas de bons conselhos, ainda que existam bons conselhos ali, mas mostrar Cristo e convidar o aconselhado a conhecê-lo melhor.

Conselheiros podem usar o livro de Provérbios para encorajar aconselhados com a sabedoria de Deus. Jesus Cristo é a nossa perfeita sabedoria (1 Coríntios 1.30). Aconselhados precisam da esperança da Sabedoria perfeita quando confrontados com sua tolice pecaminosa. Porque Cristo é a encarnação da Lei de Deus, ele é a encarnação da sabedoria.

3) Provérbios dá sabedoria

Um terceiro passo na nossa abordagem de Provérbios é incentivar o aconselhado a receber a sabedoria de Deus ricamente descrita ali. O livro de sabedoria expõe o pecado, aponta para Cristo e convida o aconselhado a receber sabedoria. A sabedoria é um dom gracioso para o símplice, que ouve para se tornar sábio (Provérbios 1.8-9; 2.1-5; 3.1-2, 21; 4.1-2; etc.). Você pode encorajar seu aconselhado a viver sua relação com Cristo nos detalhes diários da sua vida (ou seja, caminhar na trilha da sabedoria). O Espírito de Deus instruirá e treinará seu aconselhado a ter a mente de Cristo através de Provérbios. Mudar e crescer em sabedoria é um dom, um presente recebido por aqueles que ouvem as palavras do Sábio. E aqueles que ouvem, acreditam. E aqueles que acreditam, obedecem (João 6.28-29; 14.21).

O Rei sábio é Jesus. Ele é a única verdadeira fonte de sabedoria e, portanto, o único que pode mudar você e seu aconselhado.

 

[Este post, de autoria de Alexandre “Sacha” Mendes, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido e adaptado por Lucas Sabatier, e republicado mediante autorização.]

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC (Association of Certified Biblical Counselors) e mestrando em teologia prática pelo Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). É também advogado, formado em Direito pela PUC de São Paulo, e mestre em divindade pelo Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA). É casado com a Isabella, e pai da Ana Luisa e da Sophie.

Ver todos os posts do autor →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *