Você não sabe o que você não sabe: 3 premissas erradas

Seu pastor pede para que você aconselhe Maria, outro membro de sua igreja. Mesmo não dando muitos detalhes, ele te diz que João, o marido de Maria, a abandonou para morar com outra mulher. Você concorda em se encontrar com Maria.

Enquanto você se prepara para a sessão, você começa a pensar, “O que Maria está experimentando?” Uma lista óbvia vem a sua mente:

  • Choque
  • Confusão
  • Medo
  • Vergonha
  • Tristeza
  • Ira
  • Vingança
  • Inveja

A resposta certa

O que Maria está experimentando? A resposta certa: “Eu não sei.”

Embora ela possa estar experimentando uma ou várias dessas emoções, podem existir outras que você não considerou. Talvez Maria sinta culpa—como uma música country, ela acredita que, de alguma forma, levou João aos braços de outra mulher. Talvez ela se sinta justificada—ela suspeitava de infidelidade, mas João negou e a chamou de louca e paranoica. Talvez ela se sinta aliviada—talvez João era abusivo, ou talvez Maria estava de olho em outro homem.

Você simplesmente não sabe o que Maria está sentindo até que entre no mundo de Maria e a ouça—até que você se encontre com ela para ouvir dela o que aconteceu e como ela está respondendo.

O problema que eu estou levantando é o problema de assumir premissas, que é a prática que destrói relacionamentos chamada por alguns de “assumir-cídio.” Embora não acabe com vidas como o homicídio e o suicídio fazem, “assumir-cídio” pode dificultar o aconselhamento efetivo.

Fonte errada de premissa #1: Sua experiência pessoal

Há pelo menos 3 fontes das quais podemos retirar premissas erradas. Uma é a nossa própria experiência. “Eu sei o que Maria está experimentando. Aconteceu a mesma coisa comigo. Eu fui abandonado.” Isto leva a um comentário cheio de boa vontade mas completamente não sábio, “Eu sei o que você está passando. Eu passei pela mesma coisa. Eu estive aí.” Deixe-me dizer algo de forma gentil mas direta:

Conselheiro, a pessoa que você está aconselhando não é você. Você nunca esteve onde o seu aconselhado está, e você não sabe o que ele está passando.

É claro que você pode ter passado por circunstâncias similares, mas você não pode, como Paul David Tripp nos adverte, “confundir experiências similares com experiências idênticas.” [1] A experiência de ninguém é igual a sua.

Aqui está um objetivo muito melhor: ao invés de dizer ao seu aconselhado, “Eu entendo o que você está sentindo,” ouça tão bem ao seu aconselhado que ele mesmo—e não você—conclua, “Você entende o que eu estou sentindo.” Deixe seu aconselhado afirmar sua empatia e entendimento; você não deve assumir ou afirmar isso.

Fonte errada de premissa #2: Suas observações e treinamento

Todos nós retiramos ideias ao assistirmos pessoas respondendo aos problemas da vida; e você pode ter tido um treinamento formal em aconselhamento, o que o tenta a assumir, “Eu sei o que Maria está experimentando. Meu professor de aconselhamento bíblico falou sobre abandono na nossa aula sobre casamento. Eu li um estudo de caso em um livro de aconselhamento.” Mas existe um problema aí:

Conselheiro, a pessoa que você está aconselhando hoje não é a pessoa do seu estudo de caso, nem a pessoa comentada na sala de aula.

Eu gosto de colocar da seguinte forma: eu não aconselho “alcoólicos” ou “adúlteros” ou “sobreviventes.” Eu aconselho Júlio (que fica bêbado), Ana (que cometeu adultério), e Antônio (que abusou de uma criança). Eu aconselho pessoas e não estudos de caso, categorias, ou códigos do DSM.

Isto não é a mesma coisa do que dizer que estudos de caso não têm valor. Eles têm. Estudos de caso expandem nossa consciência sobre os problemas que iremos encontrar. Eles sugerem formas de reconhecer e explorar os problemas. Eles nos lembram das muitas, variadas e idiossincráticas faces do pecado e do sofrimento. Mas eles não são um substituto para que eu conheça Maria. Mal utilizados, eles podem transformar nosso aconselhado em alguém que não existe.

Fonte errada de premissa #3: Seus aconselhamentos anteriores

Se você está aconselhando por muitos anos, você provavelmente já encontrou tipos similares de problemas em aconselhamento. Mas isso nos traz uma terceira tentação: “Eu sei o que Maria está experimentando. Eu aconselhei muitas mulheres que foram abandonadas por seus maridos. Essas mulheres sempre lutam com…” Novamente, devemos ligar o alerta:

Conselheiro, a pessoa que você está aconselhando hoje não é a mesma pessoa que você aconselhou anteriormente.

Esta tentação carrega um perigo duplo. Eu posso não somente assumir que conheço Maria, mas também assumir que eu devo aconselhar Maria da mesma forma que aconselhei outros. Ambas as premissas estão erradas. Como alguém disse com humor, experiência é a habilidade de cometer o mesmo erro de forma mais frequente e com mais confiança. Tamanho único não serve em todos para roupas nem para aconselhamento.

O melhor caminho

Qual é a alternativa para o aconselhamento baseado em premissas?

Primeiro, veja Maria como um indivíduo. Como o nosso Bom Pastor que conhece suas ovelhas pelo nome (João 10:3), e como seus apóstolos ministraram de forma específica a cada indivíduo (1 Tessalonicenses 3:11; 5:14), devemos enxergar cada aconselhado como único. Nós nunca devemos colocar a experiência de outros sobre Maria.

Segundo, construa um relacionamento próximo e aberto com Maria—um relacionamento que a convide a confiar em você de forma honesta, e a se abrir para que você possa conhece-la.

Terceiro, ouça bem—ativamente e atentamente, cuidando e se compadecendo—a Maria. A Bíblia nos chama a ouvir atentamente: “Responder antes de ouvir é estultícia e vergonha.” (Provérbios 18:13). Nada é mais parecido com Deus: “Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores.” (Êxodo 3:7). Maria precisa sentir que está sendo ouvida.

Quarto, suspenda todas as opiniões até que você tenha ouvido e interagido com Maria. Precisamos ter certeza de que nossa base e nossas conclusões sobre Maria estarão naquilo que tirarmos ao ouvirmos ela de forma ativa, atenciosa, cuidadosa, e compassiva.

Embora a Bíblia nos dê verdades absolutas que se aplicam a todos, nenhuma pessoa é igual a outra. A experiência de Maria não é igual à experiência de outra pessoa, ou de qualquer estudo de caso que você leu ou ouviu, ou de outra pessoa que você tenha aconselhado.

Maria é Maria, e ninguém mais. Aconselhe Maria.

Perguntas para reflexão

Qual das três fontes de premissas erradas você costuma depender mais? Pense nas vezes em que você presumiu alguma dessas coisas. Que erro você cometeu? Como você pode crescer na sua habilidade de ouvir com mais cuidado, formando conclusões que são baseadas somente no conhecimento que você tem desse aconselhado específico?

[1] Paul David Tripp, Instruments in The Redeemer’s Hands (Phillipsburg, NJ: P& R Publishers, 2002) p.170. (Disponível em Português com o título “Instrumentos nas mãos do Redentor” da Nutra Publicações).

[Este post, de autoria de Robert Jones, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Gustavo Santos e republicado mediante autorização.]

Escrito por Lucas Sabatier

Lucas Sabatier é conselheiro certificado pela ACBC e doutorando (Ph.D.) em aconselhamento bíblico no Southern Baptist Theological Seminary (Louisville–KY). Obteve seu M.Div. no Faith Bible Seminary (Lafayette–IN, EUA) e Th.M. no Southern Baptist Theological Seminary. É também advogado formado na PUC–SP. Lucas é casado com a Isabella desde 2011 e é pai da Ana Luisa e da Sophie.

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